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Homem com “R”…de reflexivo

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on June 24, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

 

O pior de você acordar de manhã, quando sequer dormiu, é o momento em que se dispersam as nebulosas lembranças de que tudo não passou de um sonho, e se retorna à cruel e surpreendente realidade.

Qual realidade?

A que descobri – que sou feio, asqueroso, preguiçoso e infiel. Tudo isso de acordo com a composição de uma senhora, num programa de televisão.

É lógico que diante de tamanha descoberta me vi obrigado a buscar ajuda, e procurei a principal pessoa a quem recorrer nessas horas – minha mãe. Pois é. Nada de atitudes precipitadas, partindo pra aconselhamentos psicológicos ou perguntando pra antiga namorada. Nada disso. Buscar na santa mãe o aconchego de palavras de conforto é o remédio ideal pra esse tipo de pós-trauma.

E não é que a coisa começou a mudar? Após repassar-lhe toda sorte de desqualificações, termos pejorativos e adjetivos depreciativos, lançados sobre mim pela impetuosa dona-de-casa, ela fitou-me nos olhos e disse-me duas coisas. A primeira – “Rosamunde e Clarice podem responder-lhe melhor que eu.”; a segunda – “Estou atrasadíssima para o supermercado.”

Não preciso nem dizer que só a deixaria sair daquela casa, entrar naquele carro e ir às compras, depois que me dissesse onde eu encontraria aquelas suas amigas, ou vizinhas, sei lá, chamadas Rosamunde e Clarice; qual rumo eu deveria tomar, em qual bairro ou clínica deveria procurar, afinal estava em jogo a elevação ou execração da auto-estima de um verdadeiro homem.

A paranóia delirante já me tomava, quando, enfim, minha mãe me esclareceu tratar-se de Rosamunde Pilcher, escritora escocesa, autora de inúmeras obras literárias, dentre elas “Setembro” e “O Regresso”, e Clarice Lispector que, lógico, dispensa comentários.

Evidentemente que procurei, dali mesmo, respostas delas para o meu escárnio. Não precisei demorar muito. Encontrei em suas obras algo que dito, apenas, não seria o suficiente. Teria de ser escrito. E escrito por duas mulheres maravilhosas, com o propósito de ser perpetuado, de acalentar sonhos e remediar controvérsias.

E se eu tivesse o dom delas, com suas sagazes visões de mundo, sei até o que escreveria, para leitura de reles mortais como eu. Inspirado em Rosamunde, escreveria:

“… seguramente Deus se utilizou também de seu arcanjo mais fiel, seu mais atento mensageiro e sua onipotente graça na minha criação. E quando digo “minha”, o faço desconsideradas as profusões feministas, referindo-me ao macho, em seu gênero mais específico. Eu sou este ser belo, que encanto pelos meus atributos e me completo pelas minhas ações. Qual mulher, independente de cor, classe ou paixão, não vê a minha boca como fonte intangível de magia e que não sente meu beijo como um gosto de vida e de nostalgia?

O meu corpo, visto sob um ângulo eminentemente feminino, e guardadas as óbvias exceções, representa os eternos Adônis e Apolo, moldes da beleza masculina. Em essência, representa também o Norte, o objetivo, o caminho e o desejo da alma feminina.”

Reerguido meu ego e restaurada minha auto-estima, e tendo incorporado o espírito clariceano, escreveria:

“ O que seria eu, afinal?

Seria eu, de fato, obra de Deus?

Teria eu sido uma composição da Natureza, para que a síntese da beleza fosse igualmente dividida?

Ou teria nascido de um raio de luz? Mas aquele primeiro raio do dia. Aquele primeiro raio de sol que, quando vemos, temos a certeza do milagre de cada amanhecer?

Importa, porém, que eu existo.

Que existem problemas é certo, mas existem tantas virtudes…e tantas.

Existem meus sorrisos e encantos; minhas mãos, meus toques, minha fala e meu beijo.

Existe a obra harmônica, a obra humana e a obra visual.

Existe ‘Eu’, afinal.”

E então, lendo estas passagens, apenas uma coisa me viria à mente – eu poderia ser mais reflexivo.

Eu poderia ser também mais poesia, mais atenção às pessoas que me cercam, mais “toque” naqueles que amo e quero bem, mais presença com Deus, mais afago na cabeça do meu pai.

Eu poderia ser, muito mais, o homem que eu deveria ser.

 

Razing the Bar

In American History, History, Humane Economy, Law, Legal Education & Pedagogy, Liberalism on June 17, 2015 at 8:45 am

Allen 2

This piece originally appeared here in The Freeman.

The bar exam was designed and continues to operate as a mechanism for excluding the lower classes from participation in the legal services market. Elizabeth Olson of the New York Times reports that the bar exam as a professional standard “is facing a new round of scrutiny — not just from the test takers but from law school deans and some state legal establishments.”

This is a welcome development.

Testing what, exactly?

The dean of the University of San Diego School of Law, Stephen C. Ferrulo, complains to the Times that the bar exam “is an unpredictable and unacceptable impediment for accessibility to the legal profession.” Ferrulo is right: the bar exam is a barrier to entry, a form of occupational licensure that restricts access to a particular vocation and reduces market competition.

The bar exam tests the ability to take tests, not the ability to practice law. The best way to learn the legal profession is through tried experience and practical training, which, under our current system, are delayed for years, first by the requirement that would-be lawyers graduate from accredited law schools and second by the bar exam and its accompanying exam for professional fitness.

Freedom of contract

The 19th-century libertarian writer Lysander Spooner, himself a lawyer, opposed occupational licensure as a violation of the freedom of contract, arguing that, once memorialized, all agreements between mutually consenting parties “should not be subjects of legislative caprice or discretion.”

“Men may exercise at discretion their natural rights to enter into all contracts whatsoever that are in their nature obligatory,” he wrote, adding that this principle would prohibit all laws “forbidding men to make contracts by auction without license.”

In more recent decades, Milton Friedman disparaged occupational licensure as “another example of governmentally created and supported monopoly on the state level.” For Friedman, occupational licensure was no small matter. “The overthrow of the medieval guild system,” he said,

was an indispensable early step in the rise of freedom in the Western world. It was a sign of the triumph of liberal ideas.… In more recent decades, there has been a retrogression, an increasing tendency for particular occupations to be restricted to individuals licensed to practice them by the state.

The bar exam is one of the most notorious examples of this “increasing tendency.”

Protecting lawyers from the poor

The burden of the bar exam falls disproportionately on low-income earners and ethnic minorities who lack the ability to pay for law school or to assume heavy debts to earn a law degree. Passing a bar exam requires expensive bar-exam study courses and exam fees, to say nothing of the costly applications and paperwork that must be completed in order to be eligible to sit for the exam. The average student-loan debt for graduates of many American law schools now exceeds $150,000, while half of all lawyers make less than $62,000 per year, a significant drop since a decade ago.

Recent law-school graduates do not have the privilege of reducing this debt after they receive their diploma; they must first spend three to four months studying for a bar exam and then, having taken the exam, must wait another three to four months for their exam results. More than half a year is lost on spending and waiting rather than earning, or at least earning the salary of a licensed attorney (some graduates work under the direction of lawyers pending the results of their bar exam).

When an individual learns that he or she has passed the bar exam, the congratulations begin with an invitation to pay a licensing fee and, in some states, a fee for a mandatory legal-education course for newly admitted attorneys. These fees must be paid before the individual can begin practicing law.

The exam is working — but for whom?

What’s most disturbing about this system is that it works precisely as it was designed to operate.  State bar associations and bar exams are products of big-city politics during the Progressive Era. Such exams existed long before the Progressive Era — Delaware’s bar exam dates back to 1763 — but not until the Progressive Era were they increasingly formalized and institutionalized and backed by the enforcement power of various states.

Threatened by immigrant workers and entrepreneurs who were determined to earn their way out of poverty and obscurity, lawyers with connections to high-level government officials in their states sought to form guilds to prohibit advertising and contingency fees and other creative methods for gaining clients and driving down the costs of legal services. Establishment lawyers felt the entrepreneurial up-and-comers were demeaning the profession and degrading the reputation of lawyers by transforming the practice of law into a business industry that admitted ethnic minorities and others who lacked rank and class. Implementing the bar exam allowed these lawyers to keep allegedly unsavory people and practices out of the legal community and to maintain the high costs of fees and services.

Protecting the consumer

In light of this ugly history, the paternalistic response of Erica Moeser to the New York Times is particularly disheartening. Moeser is the president of the National Conference of Bar Examiners. She says that the bar exam is “a basic test of fundamentals” that is justified by “protecting the consumer.” But isn’t it the consumer above all who is harmed by the high costs of legal services that are a net result of the bar exam and other anticompetitive practices among lawyers? To ask the question is to answer it. It’s also unclear how memorizing often-archaic rules to prepare for standardized, high-stakes multiple-choice tests that are administered under stressful conditions will in any way improve one’s ability to competently practice law.

The legal community and consumers of legal services would be better served by the apprenticeship model that prevailed long before the rise of the bar exam. Under this model, an aspiring attorney was tutored by experienced lawyers until he or she mastered the basics and demonstrated his or her readiness to represent clients. The high cost of law school was not a precondition; young people spent their most energetic years doing real work and gaining practical knowledge. Developing attorneys had to establish a good reputation and keep their costs and fees to a minimum to attract clients, gain trust, and maintain a living.

The rise in technology and social connectivity in our present era also means that reputation markets have improved since the early 20th century, when consumers would have had a more difficult time learning by word-of-mouth and secondhand report that one lawyer or group of lawyers consistently failed their clients — or ripped them off. Today, with services like Amazon, eBay, Uber, and Airbnb, consumers are accustomed to evaluating products and service providers online and for wide audiences.  Learning about lawyers’ professional reputations should be quick and easy, a matter of a simple Internet search.  With no bar exam, the sheer ubiquity and immediacy of reputation markets could weed out the good lawyers from the bad, thereby transferring the mode of social control from the legal cartel to the consumers themselves.

Criticism of the high costs of legal bills has not gone away in recent years, despite the drop in lawyers’ salaries and the saturation of the legal market with too many attorneys. The quickest and easiest step toward reducing legal costs is to eliminate bar exams. The public would see no marked difference in the quality of legal services if the bar exam were eliminated, because, among other things, the bar exam doesn’t teach or test how to deliver those legal services effectively.

It will take more than just the grumbling of anxious, aspiring attorneys to end bar-exam hazing rituals. That law school deans are realizing the drawbacks of the bar exam is a step in the right direction. But it will require protests from outside the legal community — from the consumers of legal services — to effect any meaningful change.

A Primeira Noite

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on June 10, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

 

– Alô, mãe?

– Meu filho!? A essa hora? Está tudo bem?

– Mais ou menos. Espera um pouco que tem alguém querendo falar com você.

– Mas… quem?

– Alô?

– Sim.

– Aqui quem ta falando é o Filé.

– Filé? Meu Deus. Mas o que está acontecendo?

– É o seguinte, madame. Seu filho tá aqui comigo, e pra que ele continue assim, vivinho, eu quero que a senhora faça um depósito nessa conta que eu vou lhe dar. Tá pronta pra anotar?

Aquela era a primeira noite de Marcos Roberto no presídio. O que ele não imaginava é que num lugar assim existem regras próprias. Regras que ultrapassam o limite do legal e a barreira do possível, e rasgam ferozmente as sensações de paz e tranqüilidade, tanto de quem entra, quanto de quem fica esperando lá fora.

Ele não esperava também que a noite anterior pudesse acabar assim. Acostumado a pequenos furtos, nada de grande monta, coisas que se limitavam a CDs em lojas de disco, ou bonés em lojas de departamento, resolveu aceitar um convite no mínimo arrojado. Durante a rodada de cerveja com os amigos, um deles sugeriu ao grupo fazer algo mais tentador, algo que definitivamente representasse coragem e ousadia.

– E o que seria, então?

– Vamos fingir um seqüestro relâmpago.

– Um seqüestro!? Mas quem a gente iria seqüestrar?

– Ô, rapaz, se eu falei fingir, então o seqüestrado tem de ser um de nós.

Os olhos de Roberto brilharam nessa hora. Não que ele fosse completamente a favor de uma idéia como essa, mas é que toda perspectiva de perigo naturalmente já lhe aguçava o espírito, e era incrível como mesmo tendo a noção exata do quão eram arriscadas e imorais algumas de suas ações, o envolvimento interno com tudo aquilo, a devoção emocional com o ilegítimo, era algo que o envolvia, persuadia e, por fim, o conduzia.

– Eu topo! E tem mais… eu quero ser o seqüestrado.

Desenvolver o plano não seria problema, afinal, quatro cabeças pensando acelerariam qualquer processo, de modo que já no início da manhã cada um sabia exatamente o que fazer. Na saída da faculdade, Roberto simularia uma conversa telefônica bem próxima ao estacionamento, preferencialmente num momento em que várias outras pessoas pudessem estar próximas e visualizar a cena, e no instante seguinte Giba e Márcio, encapuzados, o renderiam com uma arma de brinquedo e o arrastariam para o interior de um carro conduzido pelo quarto companheiro, Claudinho, já ao volante.

Com tudo perfeitamente planejado, apenas um detalhe restava ser resolvido – como conseguir o carro? Afinal, não poderiam usar um da família, já que a identificação seria imediata e a conexão entre os autores, conseqüentemente, inevitável. Um assalto. E como durante o seqüestro a ação menos arriscada seria exatamente a do seqüestrado, coube a ele sanar essa pendência. Foi aí, exatamente aí, que o seu futuro começou a ser selado.

Carro escolhido, local apropriado, vítima ideal e um baseado pra despertar a adrenalina, lá estava ele no estacionamento do shopping Center, esperando a boa velhinha guardar as compras no porta-malas do gol cinza, um carro igual a tantos outros e que não despertaria tanta atenção durante a ação.

– Ei tia, chega pra lá que eu tô levando teu carro, tá? Num faz escândalo e nem chama atenção que eu te deixo aqui, cheia de saúde, tá ligada?

– Mas meu filho… num faça isso comigo não, uma pobre aposentada.

– Vamo, vamo, tia. Sai pra fora! Sai pra fora!

Resumo da ópera: aposentada jogada no chão; carro cantando pneus; sistema de câmeras filmando tudo, e perseguição iniciada.

Marcos Roberto era audaz, corajoso, mas não era insensato. Ele sabia que uma perseguição, agora já contando com várias viaturas, poderia implicar em coisa mais séria, e se havia algo que ele prezava, era pela única vida que tinha. Rendido, preso, conduzido, autuado e em seguida transferido para o presídio, amargava, naquela noite, o cálice sem sabor da angústia da vulnerabilidade; aquele frio no estômago que apenas as presas sentem diante do caçador, e que faz remontarem-se os flashes de vida na mente desgovernada.

– Mas, meu senhor, eu não tenho esse dinheiro agora.

– É o seguinte, “madama”, se o dinheiro num tiver na conta amanhã cedinho, ou se disser alguma coisa pra polícia, seu filho aqui já era.

– Ai, meu Deus. Tá bom, tá certo. Eu faço isso. Só não machuque meu filho, não faça nada com ele. Eu lhe peço, por favor.

– Faça o que eu tô mandando e tudo vai ficar bem. Até.

E Marcos Roberto ficou “bem”, e a mãe dele pagou o “resgate”, e a polícia nunca soube de nada.

Aparentemente existe um mundo que nunca sabe de nada. O fato é que, por mais que não concebamos o que pode ser imprevisível nas nossas vidas, quando as coisas acontecem passam a ser vistas como previsíveis.

A vida real por trás dos muros de um presídio, descoberta por Marcos Roberto, e a vida por trás da vida de Marcos Roberto, descoberta por sua mãe, fazem parte desse mundo incógnito, em que olhares mostram impressões, mas escondem os desejos da alma. Para descobri-lo, basta um olhar. Basta uma primeira noite fora de um mundo que nunca sabe de nada.

 

A Festa do Crote

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on June 3, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

 

– Eu não acredito, Nina. Você pegava as flores do cemitério?

– Claro! E qual era o problema? Elas eram lindas, estavam sempre bem arrumadinhas, tinham uma fragrância maravilhosa… e eram de graça.

A conversa girava em torno do hábito delicado de uma menininha de dez anos que presenteava os seus com toda variedade possível de flores – rosas, crisântemos, girassóis, bromélias, até as hortênsias e os lírios eram recrutados pela avidez da garota na hora das homenagens. Honras não muito convencionais, é verdade, já que eram colhidas imediatamente após os seus repousos, mas o que tinha isso demais, na cabecinha serelepe de Nina, se o importante era a alegria que causavam?

As flores tinha um certo poder mágico sobre ela. Inebriavam-na com seus cheiros suntuosos e abriam em sua mente largos portões em busca das fantasias de menina, nas quais ela se via mergulhando em mares azuis, amarelos e rosas, correndo em campos imensos, mas sempre, ao final, presenteando alguém com suas obras refeitas, transformando em pura alegria o que há pouco representava tristeza.

-Certo. Tudo bem. Mas, Nina, diz uma coisa… você era criança e eu vejo que a intenção era lúdica, bonita mesmo, mas você não acha estranho, não? Pôxa… num cemitério?! Não tinha medo, não?

-Rapaz, quando eu via aqueles crotes…

– Não seria cróton?

– Não, não. Crote mesmo. Então… quando eu via aqueles crotes, eu não conseguia me conter. A intenção era mesmo de arrumar os buquês, que já vinham lindos de morrer. Nossa… eu falei “de morrer”?

– Falou sim, mas não te preocupes, eu sei que viver e morrer, neste caso, estão tão próximos que sua referência tá certíssima.

– Era algo magnetizante, sabe? De alguma maneira, aquilo era pra mim como que uma ajuda a quem estava se despedindo desse mundo. Quando eu pegava aquelas flores e as distribuía, era como se eu estivesse repassando ao mundo uma parte do bem querer que as pessoas queriam demonstrar ao levá-las ao cemitério. Eu me sentia uma mensageira do bem. Uma mensageira de coisas boas e que não se vêem.

A descrição que ela fazia era algo que realmente nos conduzia a um pensamento de ternura, uma leveza de espírito que até nos colocava dentro da pele dela, e éramos nós mesmos os arquitetos das ações. No fundo, nós nos víamos aguardando os cortejos passarem e já íamos meio que compondo os formatos dos buquês que iriam ser o alvo do nosso saque. Uma imersão num sonho que não era nosso e que, na verdade, nem sonho era.

Era uma viagem que eu já tinha visualizado. Um frenesi que em Felicidade Clandestina nós dividíamos com a personagem que roubava rosas dos jardins frondosos, mas que aqui, na saga de Nina e seus crotes, nós compartilhávamos com uma heroinazinha que irrompia por entre portões e gradis, por entre covas e túmulos, buscando suas flores e sonhos, seus ímpetos e anseios, buscando o sorriso grato pelas flores ganhas.

– Uma coisa, porém, você ainda não disse. Por que, ao contrário da menina de Clarice, você resolvia fazer tudo sozinha?

– Ah, meu bem. Era tudo muito simples. Não havia uma sensação de solidão, mesmo porque os crotes eram quem me acompanhavam. Eu me sentia estranhamente segura com eles. Eu lhes falava muito, a bem dizer. Acho até que ninguém entenderia muito bem, caso eu chamasse. Você, por exemplo, o que diria se, aos dez, fosse convidado por uma amiguinha a apanhar flores recém postas num cemitério, mesmo elas sendo deslumbrantemente belas e sendo a intenção maior de presentear pessoas?

– Eu pensaria que você estava meio pinel.

– Pois é…

– Sem dúvida, Nina, a história é linda. Empolgante e sensibilizadora. E eu me arrisco até a dizer qual a data do ano que você mais gostava, na sua infância.

– Nem precisa, querido. Dois de novembro.

 

Five Poems by William Bernhardt

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Literature, Poetry on May 27, 2015 at 8:45 am

William Bernhardt

William Bernhardt is the bestselling author of more than forty books, including the blockbuster Ben Kincaid series of novels, the historical novel Nemesis: The Final Case of Eliot Ness, currently being adapted into an NBC miniseries, a book of poetry (The White Bird), and a series of books on fiction writing. In addition, Bernhardt founded the Red Sneaker Writing Center, hosting writing workshops and small-group seminars and becoming one of the most in-demand writing instructors in the nation. His monthly eBlast, The Red Sneaker Writers Newsletter, reaches over twenty thousand people.

Scratches

This is how it begins:
scratches on signs, on blocks
on a white page. Then the
scratches start to dance. They
recombinate, they collect sounds
they call your name.
Like so much in childhood
they are ciphers, full of secrets
but once you learn the dance
the mysteries of this world
and more, are revealed.
You learn to read.

You learn:
manners from Goldilocks
curiosity from George
gluttony from Peter
nonsense from Alice.
You set sail with Jim Hawkins, raft with Huck
And row with Mole.
Love is eternal, Catherine tells you
But so is madness, says the first Mrs. Rochester.
Jeeves helps you laugh
poetry helps you cry
Atticus shows you how to do both, with courage.

Not only have the scratches shaped the world
they have shaped your world.
They have taught you how to see.
Now you need never be afraid.

Now you will never be alone.
In the darkest night
in the deepest solitude
The scratches will call to you.
You will open the covers.
They will reach out their arms and say,
You thought you were the only one?

 

AIB 13

I was prepared for the Awkward Age
the physical changes, personality,
frustration, exasperation, even rage—
but not for this.

I was prepared to smile knowingly, thinking
This too shall pass.
And we will always love each other, I tell myself
as much as it is possible to love anyone
right?

You are in your room, alone, with a book.
Who showed you how to read?
Seemed like a good idea at the time.
My questions are greeted with
monosyllabic replies, grunts,
eye rolls, withering glares, sarcasm—
the lowest form of human discourse—
and finally the screaming:
Why can’t you just leave me alone?

Here’s why:
I still remember reading you Charlotte’s Web
taking you for long walks in the rain
through the San Juan Mountains
hand-in-hand
watching you sneak downstairs after bedtime
so we could watch Buffy the Vampire Slayer
coming to the choir loft
midway through the service
so you could sit on my lap.

The Awkward Age is supposed to be
awkward for you, not me. I should
be the parent
but instead I’m a marionette
with tangled strings, a poor sap trapped
in Shelob’s web
and you are the elusive hummingbird
who hovers in midair for a short time
and then skitters away
faster than my eye can follow.

 

Baden-Baden

As it turns out, the Black Forest
looks nothing like Black Forest cake.
And the gambling resort town of Baden-Baden
looks nothing like Las Vegas, thank God.
Men do not wear shorts in the casino,
hairy legs shouting, “Show me the eight!”
The only sex shop—Erotik World—is discretely tucked away on a
Side street,
not advertised on a video monitor larger than the state of Rhode
Island.
And there is not a Starbucks on every corner.
Yet.

The others in my group say this is just like an American resort town,
a tourist trap, which snares the unsuspecting
with offers of soft ice cream and bottled water
that will restore your youth.
But they are wrong.
Where is the venture capitalist
as proud of his swelling belly
as he is of his adolescent wife
with her high-pitched giggle, blonde ringlets, and denim-short-
shorts?
Where are the other captains of industry,
the ladies of the evening?
Where is the young father with the baby carrier on his back?
or the mother herding her enormous go-forth-and-multiply brood
the sullen teenager clutching a skateboard
the elderly couple holding hands as they return to the KOA
Kampground
the high roller who is secretly
a middle-management operations officer at a cardboard box factory
the alcoholic artist
the Elvis impersonator?

It feels good to get away from what is familiar
to force yourself into a new environment
to think new thoughts in new places,
I muse, as I sit at a table in the ice cream café
recalling the life I left behind
and the faces
and wondering if there is really any difference
as I wait for the rest of the group to arrive
at the Baden-Baden McDonald’s.

 

Paulette

We hover throughout dinner
a witty bon mot, a quotation
from the sonnets, a well-told
anecdote
pelicans skimming the surface
of the water
but never touching it.

 

Dinah and Me

My cat hates my girlfriend
and the one before her, and the one
before her. She crouches on the carpet
stalking with evil emerald eyes
the usurper who has claimed what is hers,
the attention, the affection,
the lap she warms while I work,
her side of the sofa.

Perhaps this is why they never last.
Who could feel at ease
with the furry wrath
bearing down upon them, the sculpted brow
and sanded tongue, watching, marshaling
her eldritch incantations
to wrest the interloping gluts from
her side of the sofa.

One never hears of Casanova’s cat.
Romeo brought no feline fury to that fateful balcony.

Perhaps it’s not the cat.
Could be the charred chicken piccata I cook
determined that this time I will get it right
or the gold-plated Scrabble set,
the giant portrait of the kids on the hearth,
the Judy Garland records—
or something else entirely.
I prefer to think it’s the cat.

And late at night
when the children are tucked in and sleeping safely
and the house is lonesome with silence
and I have barricaded myself with
a hot cup of green tea, a puzzle,
a book on the bedside,
and the long tendrils of the sycamore tree
scratch at my window pane
I am grateful for the rumbling goddess
keeping watch on my shoulder.

Amiga do Peito

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on May 20, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

 

– Ama?

– Claro, amor.

– Diga.

– O quê?

– Que ama.

– Amo você.

– O quanto?

– Quanto o quê, amorzinho?

– O quanto você me ama, oras.

– Muito.

– Muito, quanto?

– Muito mais que o muito.

– E até quando?

– Até quando?

– É. Até quando você me ama, ou vai me amar?

– Pra toda vida, amor.

– Essa e outras vidas?

– Olha, meu amor… que eu amo e por quem respiro, são três horas da madrugada, eu tô cansadíssimo, tenho que acordar cedo e não sei se vou conseguir desse jeito.

– Ah, Rafa… você sabe muito bem que eu sou insegura mesmo, e que pelo fato de eu ser tão apaixonada por você eu preciso confirmar isso sempre.

– E isso inclui o meio, exatamente o meio, da madrugada, Pati?

– Mas eu não tenho culpa se isso às vezes me aflige.

– E por que isso te aflige, amor?

– Pense comigo. Eu sou louca por você.

– Sei.

– E não me vejo longe de você.

– Entendo.

– Então… se o que você sentir por mim não for o mesmo, ou na mesma quantidade, ou na mesma intensidade, eu vou ficar vulnerável, né?

– Vulnerável?

– Totalmente vulnerável.

– Pati, meu amorzinho. Você andou falando com alguém, hoje?

– Eu?

– É. Você.

– Por que você está me perguntando isso?

– Porque, minha vida, eu conheço muito bem a mulher com quem eu estou casado há cinco anos. E ao longo desses sessenta meses, sempre que alguma das suas amigas fala com você um assunto mais polêmico, você simplesmente não dorme, como agora, e não sossega até me acordar no meio da noite, como hoje. Quem foi?

– Foi a Fabi.

– Ai, de novo não. Novamente a Fabi? E o que ela te falou dessa vez?

– Ela apenas me repassou. Foi algo que as meninas do trabalho comentaram ontem.

– E eu já to até imaginando. A Fabi tem um jeito todo especial de conseguir repassar coisas que foram comentadas pelos outros.

– Ah… mas isso não vem ao caso.

– Realmente não. Conta.

– Pois é. Ela me disse que as meninas comentaram, e você sabe muito bem que as meninas…

– Pati, não enrola. Fala direto.

– Ela me disse que hoje em dia os homens são extremamente claros naquilo que sentem; que eles falam muito pras mulheres o quanto as amam, e que não conseguem viver sem elas. Essas coisas.

– E baseada no quê, ela disse isso?

– É aí que entram as meninas. Como você sabe, elas são solteiras, estão sempre em contato com outras pessoas solteiras e têm visto que os homens com quem se relacionam são assim, carinhosos, atenciosos e falam sempre. Ela até acha que tem a ver com essa onda de metro-sexualismo e tudo.

– E onde é que eu entro nessa história toda?

– Pois é. Elas também comentaram que nunca vêem você falando.

– Elas nunca me vêem falando?

– É.

– Que eu amo você, e que sou louco por você, e tudo?

– Isso.

– E o que você acha disso?

– Eu? Bem… não sei ao certo, e é por isso que estamos conversando, não é não?

– Olha, Pati, embora metro-sexualismo não seja o meu forte, e na verdade eu sequer saberia dizer o que faz, como se veste e como fala um metro-sexual…

– Eu te dou umas dicas, amor…

– Não, não precisa. Posso continuar?

– Claro, amor.

– Meu amor, não vai ser a quantidade de vezes que eu diga o quanto a amo que vai dar qualidade ao que sinto por você. O meu amor é presente, é profundo, é cristalino e verdadeiro, e com toda certeza já existia há muito tempo, antes mesmo de nos conhecermos. Prova disso foi o meu olhar patético pra você, na primeira vez que te vi, dizendo pra mim mesmo “eu amo essa mulher desde sempre; eu sonhei com ela; eu torci por ela… eu vivi pra ela.”

– Oh, amor…

– É também possível, meu amor, que eu não esteja falando o suficiente pra você que te amo, mesmo porque, Pati, dizer-lhe isso a cada minuto, toda hora e todos os dias, ainda não atenderia o meu desejo e nem ao que você merece. Você que merece tanto, e que amo tanto. Saiba, entretanto, amorzinho, que vou buscar melhorar. Mas se, ainda assim, eu não parecer a essência do que seria um aplicado “metro”, eu ainda serei o mais apaixonado, o mais absolutamente devotado e o mais amavelmente entregue dos homens.

– Ai, amor. Isso foi tão lindo. Agora eu me sinto bem melhor.

– Jura?

– Juro.

– Vamos dormir, então?

– Vamos.

– Amo você. Muito.

– Também te amo, Rafa.

– Tá bom.

– Tá bom? Mas eu pensei que você fosse dizer “muito mais que o muito”…

– Boa noite, amor.

 

Caxito

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on May 13, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

Se um dia me perguntarem o quanto o Caxito foi importante pra mim, a resposta vai ser rápida e sóbria, o que poderá parecer um sarcástico paradoxo, em função do que eu via naqueles dias – um reduto de conhecimentos. Posso até estar provocando sobressaltos e ressentimentos a toda ordem de pensadores ou intelectuais, porém, guardadas as proporções e respeitadas as comunidades que formaram grandes escritores, foi daquela fonte ali, daquele conjunto de coisas, do Caxito, que comecei a contrapor razões aos fatos, possibilidades à realidade e necessidades às perspectivas.

A essa altura, o leitor já deve estar se perguntando: “O que vem a ser esse tal de Caxito, afinal?”. Pois bem, trata-se de um bairro, mas não um bairro qualquer, é na realidade um grande conglomerado de pequenas coisas. Um conjunto inicialmente organizado de ruas, que vai sofrendo uma espécie de mutação sócio-habitacional-cultural e, ao final, toma uma forma pretensiosa de bairro. Lá, como poucos, tive a oportunidade de ver, na letargia de atitudes, nas expressões idiomáticas, nas feições frustradas e nos bêbados inveterados, que aquela junção toda provocava uma espécie de comoção geral, de comiseração geral, em cada um e em todos, gerando certa acomodação natural frente às dificuldades, o que, invariavelmente, como num ciclo vicioso, gerava mais letargia, frustração e embriaguez.

Dos amigos da époça, lembro de todos – pelo menos de seus apelidos: Vaíta, Mi, Biuzinho, Nino, Novo Grande, Leto, Berval, Van e Dilá, que eram, em grande parte, aprendizes daqueles moradores mais antigos, conhecidos por serem cheios de deliciosas estórias mentirosas, o que os endeusava diante daquela gente; João Bocão, João Boi, Coquilha, Gerson Coquinho, Cara de Prega, Beto Perneta e Ontôin Cotó poderiam estar inseridos em qualquer obra autoral, já que traduziam o estereótipo de personagens literários; Cremilda Doida, com seus acessos, freqüentemente era atendida por minha mãe, alvo preferido também de Ernestina, uma bêbada sorumbática que, em seus píncaros de porre, chegava graciosamente em nossa casa, às duas horas da madrugada, gritando: “Santinha, meu amoooor!”. Entretanto, de quem eu mais lembro, na verdade, é de Vado Pipa. Um ser absolutamente hilário – quando estava bêbado, claro – que exercia um certo fascínio na garotada, creio eu pelo fato daquele futuro tragicamente almejado, de tornarem-se também bêbados divertidos. Lembro, inclusive, uma ocasião quando retornava pra casa, com meu pai, e vi nosso personagem, com uma garrafa de cachaça, totalmente ébrio, fitar-nos e cantar.

– Seu Santos… ela me deixou e foi morar com o guarda. Ela me deixou e foi morar com o guarda…

Trôpego, ainda tentou equilibrar-se e bambamente estatelou-se na lama, entre risos e outras cantorias, no que aproveitamos pra sair dali. O mais risível, porém, aconteceu quase duas décadas depois, quando numa noite dessas levava minha mãe de volta pra casa onde morei, e exatamente no mesmo lugar, com uma garrafa na mão, vejo Vado Pipa, velho, resistente, indiferente… e que me cumprimenta, cantando.

– Ei, Hugo… meu bom… ela me deixou e foi morar com o guarda. Ela me deixou e foi morar com o guarda…

Sorri compulsivamente, deixei minha mãe e notei o que há tempos não tinha me dado conta – ali ainda era o Caxito.

Freqüentemente eu me perguntava o que atraia tanta gente àquela conversão de ruas, e não fosse uma explicação dada por João Bocão a meu pai, seguramente ainda teria as mesmas dúvidas. A conversa surgiu durante um “rasga-rasga” ocorrido uma única vez, na sede do Palmeiras Esporte Clube – única gafieira do bairro – e que se estendeu, rapidamente, a todas as ruas.

No Palmeiras, às sextas e sábados à noite, o que se via era uma verdadeira profusão de cores, luzes e cenas hilárias, transformando aquelas pessoas que nos pareciam normais, perecíveis, alcoólatras e conformadas, em personagens vigorosos, alegres e irreverentes. Era uma pena que minha mãe não me deixasse sequer chegar perto do clube nessas noites, por isso eu tinha de fazer verdadeiras manobras pra entrar na cozinha de casa, sair pela porta dos fundos, pular o muro de Dona Lídia, passar pelo terreiro de Dona Cotinha para, depois de aproveitar o descuido de Cara de Prega na portaria, ter meus quinze minutos de puro êxtase, vendo as carícias suadas, os beijos excitados, as mãos nos peitos e as danças frenéticas ao som do merengue, tempo suficiente pra retornar sem ser percebido, e pensar no que aquilo representava pra um menino de onze anos.

No carnaval de 1980, dentro do Palmeiras, ocorreu um episódio que representava bem esse misto de coisas novas e impensáveis – o rasga-rasga. Era a quarta-feira de cinzas, mas nem por isso a alegria bizarra daqueles foliões, travestidos daquilo que, melhor que ninguém, sabiam retratar, tendia a diminuir. E o interessante era ver que, enquanto em Olinda o último dia era visto como algo absolutamente natural, buscando estender aquelas horas restantes tão somente pelo sabor que elas tinham, sentindo a falta do sobe-desce das ladeiras, do frevo e do maracatu, no Caxito parecia uma obrigação comum a todos a extensão do último dia de festa, da última tarde que, indo embora, levaria também o cobertor ilusório de toda aquela banal realidade.

A certa altura, Beto Perneta, que ainda encontrava-se de pé por pura insistência, já que de longe se notava, pelo tanto que tinha bebido, não saber sequer onde estava, puxou Cremilda Doida pela Cintura, certamente querendo fazer parte do trenzinho em que ela estava, e num ato meio reflexivo ainda deu algumas passadas naquele cordão, mas como o trem corria em círculos, o pobre Beto não conseguiu parar suas pernas, de tamanhos diferentes, e quando escaparam-lhe as mãos – àquela altura já na bunda da Doida – só conseguiu segurar-lhe a saia, que veio com ele, cambaleando, topando, gritando e só não se ferindo na queda porque conseguiu agarrar-se na camisa de João Boi, que foi rasgada na aterrissagem. Ainda sentado, ileso, com a mão da camisa no peito e a mão da saia na cabeça, vendo Cremilda – o exemplo da calma – com a mão estendida, esperando a veste, Beto Perneta respirou fundo, olhos fechados e cara azeda.

-Êita, que é bacalhau puro!

A risadagem, claro, foi generalizada e Cremilda nem pensou muito, o que não era surpresa pra ninguém, e arrancou, rasgou e jogou pra todos os lados os pedaços da camisa de Beto Perneta.

O que se sucedeu foi uma verdadeira tendência de rasgadura geral. Via-se pai rasgando genro, neto rasgando sogra, primo rasgando nora, desconhecido rasgando conhecido. A tal ponto daquilo tudo ultrapassar as paredes do clube e se estender às ruas, onde quem quer que fosse passando virava uma nova vítima dos contumazes rasgadores – que àquela altura eram todos – independente da qualidade do tecido, cor, molde ou detalhe. Pessoas indo pra casa, fugindo da folia, indo ao trabalho, ao hospital, voltando, todos eram sumariamente agarrados e rasgados, de uma maneira que em determinada hora o que se via eram os corpos seminus, no máximo com suas cuecas, anáguas ou sutiãs descoloridos e surrados, sobre um tapete enorme de retalhos do que haviam usado e, assim como que em transe, rindo daquele encontro de alegria carnavalesca, debilidade e descompromisso com qualquer pudor.

Nessa hora, com meu pai, no terraço de nossa casa, de onde assistíamos a tudo, João Bocão se aproximou dizendo:

– Sei não, Seu Santos… ou endoidô tudo, ou tá tudo querendo endoidá.

E nessa hora, mesmo que involuntariamente, com seu trocadilho, João me deu a luz do que era o óbvio. Quem estava ali, não só naquela hora, mas quem vivia ali, alimentava-se ali e fantasiava seus dias ali, estava querendo de fato “endoidá”. Mas, endoidar para demonstrar que não eram só as mazelas que faziam parte de suas vidas, mas também os sonhos. Sonhos de alegria e esperança. Sonhos, sobretudo, por algo que em nenhum outro lugar, com tanta intensidade, eles iriam atingir – a liberdade de estarem ali; o sonho pelo despudor de rasgarem suas roupas, como quem arranca uma chaga do corpo, e de peito, coração e alma abertos, demonstrarem que sempre seriam maiores do que aquelas feridas.

Na manhã seguinte, ainda a olhar aquela espécie de campo de batalha de tecelões, Vado Pipa se aproximou de mim e num de seus acessos de lucidez – lógico que irremediavelmente raros, mas que nem por isso deixavam de ter a importância real em nossas impressões de mundo – comentou:

-Coisa linda, né?

– O que é lindo, Vado?

– Esses pedaços de roupas pelo chão. Olha lá a camisa de Nino, o meu filho; o calçãozinho de Pirrita, irmão de Getúlio… tem até a saia de Cremilda, ali ó…

O que me impressionava é que a cada peça, ou resto dela, havia uma identificação do dono e um fato pitoresco.

– Êita! Aquele sutiã ali eu conheço. Neide do Pão tava com ele na sexta-feira do carnaval, lembra? Tava de blusa branca, choveu e o biquinho do peito passava por esse buraquinho aqui. – Enfiando o dedo mínimo pelo orifício.

Nessa hora rimos bastante e eu fiquei deslumbrado com aquele sujeito pequeno, franzino e das pernas tortas, que conseguia ser tão preciso nas suas pequenas coisas e despertava um curioso sentimento de admiração em quem se colocava ao seu lado, estampando no rosto um sorriso de contentamento e realização por estar ali, sempre, todos os dias, transformando o comum em algo singular e especial.

– Sabe, Hugo, a gente precisa melhorar esse negócio. – Eu não entendi, mas Vado continuou.

– A gente precisa organizar melhor esse carnaval. Como é que esse povo brinca assim e joga a roupa em tudo quanto é lugar? Tudo bem que tá rasgada, mas poderiam jogar num lugar só, né não?

Os paradoxos eram corriqueiros no Caxito, e aquele momento se tratava de um deles. A grandeza de um pensamento humilde e a profunda e irretocável banalidade de sua existência. Aquelas pessoas me mostravam o quanto a sensibilidade, a delicadeza e a fatalidade poderiam fincar suas marcas em minhas memórias, fazendo-me refém de meus medos e, ao mesmo tempo, mostrando-me a beleza de que tudo aquilo o que é bom está ao nosso alcance.

Naquela hora, João Bocão se aproximou e foi logo fazendo seu comentário:

– Eu acho que vai chover, hoje…muito.

 

The Country Lawyer Explains

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Poetry, Writing on May 6, 2015 at 8:45 am

Amy Susan Wilson

Amy Susan Wilson has published in numerous journals, including This Land, Southern Women’s Review, and elsewhere. Fetish and Other Stories, which focuses on Southern women, is forthcoming May 2015, Third Lung Press. She is Editor of Red Truck Review: A Journal of American Southern Literature and Culture and Publisher, Red Dirt Press. (www.redtruckreview.com). She publishes attorney Steven L. Parker’s debut novel, “BS,” release date of June 2015. 

“The Country Lawyer Explains”

Goat blood gushing
like Turner Falls
after a flood;
Rascal
your number one bird dog
settled into truck bed,
flip out the side
into that ravine,
fridges
sofas—
goats
thrown out back
the pull-trailer
Bethel Fork Road.
Seven necks
wishbone-easy
snap.
Ford 250 axle busted up
good as a boxer’s face.

Elmore charging outta his pen
as you chug the rut-red dirt
road—lying in wait he was–
Elmore
knowing to dart
just the right millisecond
to crash pancake-thin
Ford 250 and all,
Elmore’s
laugh-smirk-snort
the sure-fire sign
of a serial killer
you say.
Welp, Elmore enjoyed takin’ out
           meat goats,
           ole Rascal.
           Ya didn’t see him laugh;
           truck engine
           blazin’ Hades
           goat blood
           galore.

II.

Uncle Roy,
Aunt Wanella,
I don’t doubt
the Internet says
you can prosecute a pig
some parts the world
but not
Pottawatomie County,
Oklahoma.
Sure, blame our federal
government,
Obama,
But animals lack culpability.
I agree
smells like rain
come this hour.
Elmore’s gonna muck
in mud
sun his big fat
wad of belly,
his favorite
slaughter hog-thing
beyond murdering meat goats,
God’s finest bird dog,
the injustice
of reward.

Salto Alto

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on April 29, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

– Realmente as lembranças são boas, mas você tem de reconhecer que nós chegamos a esse ponto graças às suas implicâncias.

– Implicâncias?! Meu querido… implicâncias são nada, diante dessa sua postura…dessa intransigência… desse machismo todo. Machismo, isso…é esse o termo.

– Agora você fala em machismo, Elvira, mas na época ficava toda dengosa dizendo “como me fortalece essa sua preocupação, benzinho”. Vê lá aquele cara, o dos óculos na boca, eu tenho certeza que ele tá dizendo pra ela que o decote tá muito escandaloso.

– Olha, Cuca, se ele tá falando algo a respeito do decote, é o que vai fazer com ele depois daqui. Não vê aquela cara?

– Cara de quê? De quê?

– Esquece. Poderia pegar outra taça pra mim, por favor?

– Pego, desde que você não me peça com esse jeitão de juíza de paz em audiência, afinal de contas, ainda não estamos separados.

– Cuquinha, anjo, pega uma tacinha pra mim, lindo?

– Você sempre usava “anjo” quando não tava legal ou queria brigar.

– Pega uma taça, pô!

– Então, Cuca, como estão as coisas? A Elvira tá linda hoje, heim?

– Uma diva por fora e uma centuriã por dentro. Só tá dando estocada, Marcão.

– É assim mesmo, rapaz. Você não viu quando eu me separei da Sandrinha? Todo santo dia era uma discussão… e à noite também.

– Só que a Sandrinha não passava na tua cara que você tinha estragado tudo. Pra falar a verdade, eu nem via vocês discutindo tanto.

– É… diferentemente da Ester, ela aceitou o desgaste da relação.

– E a Ester não tá aceitando?

– Ela não acredita em desgaste da relação, meu querido. Ela vê o término do casamento como o final inevitável de uma relação de interesses, mesmo que, no nosso caso, o interesse maior fosse apenas sexo. Toma esse chileno aqui.

– Não tinha o cabernet argentino que você gosta, mas esse chileno aqui é divino.

– Edvaldo Augusto… esse argentino a que você se refere foi quando nós começamos a namorar, e eu nem gostava de vinho na verdade.

– Tá vendo só? Eu me esforço, procuro ser um cara atencioso, e o que ganho sempre? Patada.

– Calma, Cuca. Lembre-se que estamos discutindo nossa relação.

– No aniversário da filha do nosso melhor amigo?

– Do seu melhor amigo. Ele deixou de ser o meu, quando terminou com a Sandrinha.

– Mas que barbaridade, Elvira. Você… uma mulher inteligente, moderna, que normalmente aceita os defeitos e decisões das pessoas, com esse preconceito ridículo.

– Você acha?

– Acho.

– Engraçado. Eu poderia jurar que sendo gêmeas univitelinas e tendo o Marcão começado com a Ester um mês depois que eles acabaram, isso já seria motivo suficiente.

– Olha quem tá chegando.

– Oi, pai.

– Filhinha. Cuca. Tô interrompendo alguma coisa?

– Imagina, seu Berto. A gente tava somente divagando sobre contingências de relação a dois.

– Especialmente quando essa relação a dois diz respeito a duas pessoas muito próximas, que nem estão tão próximas assim.

– Minha gente…faz trinta anos que eu e sua mãe decidimos não desgastar a relação com esse tipo de discussão.

– Mas vocês já estão separados há vinte anos.

– Isso não importa para o contexto. Mas pelo menos nos dez primeiros anos deu certo.

– É o que eu tento sempre dizer pra ela, seu Berto. Não adianta discutir o que pode ser tranqüilamente relevado.

– Acontece, Cuca, que a arte de relevar, tão eficientemente desempenhada por você, é exatamente o que agrava as coisas. Como agora, por exemplo.

– Agora? Qual exemplo? O que eu fiz?

– Você me trazendo aqui, na casa do “ex” da minha irmã, depois d’ele ter feito o que fez, achando tudo normal.

– Mas o que tem de errado numa separação e num novo casamento?

– Realmente não tem nada errado, minha filha.

– Ocorre que ele já traia a Sandrinha antes de separar, papai.

– Realmente tá errado, Cuca.

– E o pior é que esse aí sabia de tudo.

– Isso não é verdade, Elvira, eu apenas achava.

– Ah é? E quem foi que apresentou a Ester ao Marcão?

– Eu, como você sabe.

– Só não sabia que vocês já tinham namorado antes.

– Ela foi minha namorada aos treze anos, Elvira.

– O que é pior, porque esses sentimentos antigos nunca passam e nem são esquecidos.

– Nossa, Elvira, dessa vez você tá ultrapassando todas as possibilidades de imaginação fantasiosa.

– Uma imaginação que hoje tem uma filha aniversariando e não tira os olhos de você.

– Agora você exagerou. Tô me sentindo até ofendido com isso. Eu jamais teria alguma coisa com a mulher do meu melhor amigo.

– Minha filhinha… eu acho que você tá saindo do foco também.

– Se tem algo que eu não perdi foi o foco, papai. O foco nos olhos da Julianinha, verdes como os do Cuca; o foco no nariz, arrebitado feito o do Cuca, e até no jeitinho dela sorrir…exatamente como o do Cuca.

– Essa foi demais… uma filha com a Ester. A Julianinha ser minha filha é a coisa mais maluca que eu poderia ouvir nesses dez anos.

– Eu também.

– Papai…o senhor tem que ficar do meu lado.

– Bem, com licença, acho que meu celular tá vibrando. Filhinha. Cuca.

– E o que tá vibrando agora é a minha cabeça. Olha , Elvira, a gente se fala em casa. Pode ficar com o carro que eu pego um táxi.

– Isso. A consciência já tá pesando.

– Seu Berto, empresta o telefone?

 

An Issue of Supreme Importance for 2016

In America, Conservatism, Judicial Activism, Judicial Restraint, Jurisprudence, Justice, Law, News and Current Events, Politics, The Supreme Court on April 22, 2015 at 8:45 am

Allen 2

This piece originally appeared here in The American Spectator.

The time has come for politicians to announce their candidacy for president. In the following weeks we can expect more names to be tossed into the hat of presidential hopefuls. Already Senator Ted Cruz and Senator Rand Paul have proclaimed their desire to lead our country. Hillary Clinton made her candidacy official Sunday, and Senator Marco Rubio announced on Monday night.

The 2016 election is shaping up to be the most pivotal in decades, including for reasons not everyone is talking about.

It’s true that Republicans will challenge Obama’s legacy and that everything from Obamacare to payday loans will receive renewed and energetic scrutiny on the campaign trail.

Yet these won’t be the most pressing domestic issues facing the next president. Even more important will be the president’s judicial philosophy. That’s because the probability is high that the nation’s next chief executive administration will nominate at least three candidates to the U.S. Supreme Court.

Although confidence in the Court is at an all-time low, voters do not seem particularly concerned about the Court’s future composition. Perhaps the typical voter does not understand the role the president plays in nominating justices. Perhaps the goings-on of the judicial branch seem distant and aloof and out of the purview of our everyday worries. Perhaps most people are too short-sighted to consider the long-term and far-reaching effects that a president can have on the legal system. Whatever the reason, voters should re-prioritize. Conservatives should move this issue to the forefront of the debates.

When the president is inaugurated in January 2017, Justice Ruth Bader Ginsburg, widely thought to be in poor health, will be two months shy of her 84th birthday; Justice Antonin Scalia and Justice Anthony Kennedy will be 80; and Justice Stephen Breyer will be 78. Is it reasonable to expect these justices to serve out four more years under another administration?

Justice Ginsburg and Justice Breyer are considered members of the left wing of the Court whereas Justice Scalia is considered to be on the right. Justice Kennedy is famously known as the Court’s “swing vote.”

If a Republican wins in 2016 election, he could replace two liberal members of the Court, leaving just two other remaining: Justice Sonia Sotomayor and Justice Elena Kagan. If Justice Kennedy were also to step down during the next administration, a Republican president could further expand the conservative wing of the Court to seven, making room for a vast majority in contentious cases. If the right wing of the Court enjoyed a 7-2 majority today, for instance, there would be less media speculation about how the Court would decide cases on same-sex marriage, religious freedom, immigration, or campaign finance.

The Senate Judiciary Committee, which conducts hearings on presidential nominees to the High Court, currently consists of 11 Republicans and 9 Democrats. Republicans hold a 54-member majority in the Senate, the governing body that confirms presidential nominees to the Court. If these numbers remain unchanged or only slightly changed under a Republican president, that president would have wide latitude to nominate candidates who have tested and principled commitments to conservatism.

Let’s say the presidential election favored a Democrat. A Democratic president could simply replace the departing Justice Ginsburg or Justice Breyer with a jurist in their mold, in effect filling a liberal seat with another liberal. If a Democratic president were up against a Republican Senate, however, his or her nominees would have to appear less liberal than Justice Ginsburg to ensure their confirmation.

Replacing Justice Scalia, arguably the most conservative justice on the Court, with a liberal would be transformative. Although depicted as an unpredictable moderate, Justice Kennedy was nominated by a Republican and more often than not votes with the right wing of the Court. Replacing him with a liberal justice would be a victory for the left. It is possible for the left wing of the Court to gain a 6-3 majority if a Democrat succeeds President Obama.

It’s not inconceivable that in the time he last left, President Obama could name at least one successor to the Court. Barring some unforeseen illness or act of God, however, that is unlikely to happen this late in his presidency. Justice Ginsburg insists on remaining on the Court, and Justice Breyer still has some healthy, productive years ahead of him.

Judges’ and justices’ judicial philosophies are not easily pressed into two sides—conservative or liberal, Republican or Democrat—because law itself usually is not reducible to raw politics or naked partisanship, and a judge’s job entails more than interpreting the language of legislative enactments. Law deals with the complex interactions of people and institutions under disputed circumstances that are portrayed and recounted from different perspectives; therefore, law rarely fits cleanly within simplistic political frameworks.

For this reason, among others, it can be difficult to predict how potential justices will rule from the bench if they are installed on the Court. Chief Justice Earl Warren ushered in the progressive “Warren Court Era” even though he had served as the Republican Governor of California and, in 1948, as the vice-presidential running mate of presidential candidate Thomas E. Dewey. More recently President George H.W. Bush nominated Justice David Souter to the Court. Justice Souter tended to vote consistently with the liberal members of the Court.

The Senate confirmation process has grown more contentious in recent years, and that has made it more difficult for another Souter to slip by the president. But it has also watered down our nominees, whose lack of a paper trail is considered a benefit rather than evidence of a lack of conviction or philosophical knowledge (lawyers are trained, not educated). It has come to a point where if you’re confirmable, you’re not reliable, and if you’re reliable, you’re not confirmable. Chief Justice John Roberts’ acrobatic attempt to uphold the individual mandate in Obamacare on the ground that it was a “tax” reveals just how squishy and unpredictable our justices have become.

There is, of course, the trouble with categorizing: What does it mean to be a “conservative” or a “liberal” judge or justice? Our presidential candidates may have different answers. In January Senator Paul declared himself a “judicial activist,” a label that is gaining favor among libertarians. He appears to have backed away from that position, recently bemoaning “out-of-control, unelected federal judges.” Activist judges, at any rate, can be on the right or the left.

Ted Cruz has not advertised his judicial philosophy yet, but by doing so he could set himself apart because of his vast legal experience, including his service as the Solicitor General of Texas. Two potential presidential nominees, Marco Rubio and Lindsey Graham, are also attorneys, but Rubio’s legal experience, or non-experience, is subject to question, and Graham has been out of the legal field for some time—although he serves on the Senate Judiciary Committee and has intimate knowledge of the Senate confirmation prospects for potential nominees.

It matters a great deal what our presidential candidates believe about the hermeneutics and jurisprudence embraced by potential Supreme Court justices. In the coming months voters will have the power to force candidates to address their judicial philosophy. The candidates must articulate clearly, thoroughly, and honestly what qualities they admire in judges because those qualities might just shape the nation’s political landscape for decades to come.

Conservatives have much to lose or gain this election in terms of the judiciary. Supreme Court nominations should be a top priority for Republicans when debate season arrives.
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