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A Primeira Noite

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on June 10, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

 

– Alô, mãe?

– Meu filho!? A essa hora? Está tudo bem?

– Mais ou menos. Espera um pouco que tem alguém querendo falar com você.

– Mas… quem?

– Alô?

– Sim.

– Aqui quem ta falando é o Filé.

– Filé? Meu Deus. Mas o que está acontecendo?

– É o seguinte, madame. Seu filho tá aqui comigo, e pra que ele continue assim, vivinho, eu quero que a senhora faça um depósito nessa conta que eu vou lhe dar. Tá pronta pra anotar?

Aquela era a primeira noite de Marcos Roberto no presídio. O que ele não imaginava é que num lugar assim existem regras próprias. Regras que ultrapassam o limite do legal e a barreira do possível, e rasgam ferozmente as sensações de paz e tranqüilidade, tanto de quem entra, quanto de quem fica esperando lá fora.

Ele não esperava também que a noite anterior pudesse acabar assim. Acostumado a pequenos furtos, nada de grande monta, coisas que se limitavam a CDs em lojas de disco, ou bonés em lojas de departamento, resolveu aceitar um convite no mínimo arrojado. Durante a rodada de cerveja com os amigos, um deles sugeriu ao grupo fazer algo mais tentador, algo que definitivamente representasse coragem e ousadia.

– E o que seria, então?

– Vamos fingir um seqüestro relâmpago.

– Um seqüestro!? Mas quem a gente iria seqüestrar?

– Ô, rapaz, se eu falei fingir, então o seqüestrado tem de ser um de nós.

Os olhos de Roberto brilharam nessa hora. Não que ele fosse completamente a favor de uma idéia como essa, mas é que toda perspectiva de perigo naturalmente já lhe aguçava o espírito, e era incrível como mesmo tendo a noção exata do quão eram arriscadas e imorais algumas de suas ações, o envolvimento interno com tudo aquilo, a devoção emocional com o ilegítimo, era algo que o envolvia, persuadia e, por fim, o conduzia.

– Eu topo! E tem mais… eu quero ser o seqüestrado.

Desenvolver o plano não seria problema, afinal, quatro cabeças pensando acelerariam qualquer processo, de modo que já no início da manhã cada um sabia exatamente o que fazer. Na saída da faculdade, Roberto simularia uma conversa telefônica bem próxima ao estacionamento, preferencialmente num momento em que várias outras pessoas pudessem estar próximas e visualizar a cena, e no instante seguinte Giba e Márcio, encapuzados, o renderiam com uma arma de brinquedo e o arrastariam para o interior de um carro conduzido pelo quarto companheiro, Claudinho, já ao volante.

Com tudo perfeitamente planejado, apenas um detalhe restava ser resolvido – como conseguir o carro? Afinal, não poderiam usar um da família, já que a identificação seria imediata e a conexão entre os autores, conseqüentemente, inevitável. Um assalto. E como durante o seqüestro a ação menos arriscada seria exatamente a do seqüestrado, coube a ele sanar essa pendência. Foi aí, exatamente aí, que o seu futuro começou a ser selado.

Carro escolhido, local apropriado, vítima ideal e um baseado pra despertar a adrenalina, lá estava ele no estacionamento do shopping Center, esperando a boa velhinha guardar as compras no porta-malas do gol cinza, um carro igual a tantos outros e que não despertaria tanta atenção durante a ação.

– Ei tia, chega pra lá que eu tô levando teu carro, tá? Num faz escândalo e nem chama atenção que eu te deixo aqui, cheia de saúde, tá ligada?

– Mas meu filho… num faça isso comigo não, uma pobre aposentada.

– Vamo, vamo, tia. Sai pra fora! Sai pra fora!

Resumo da ópera: aposentada jogada no chão; carro cantando pneus; sistema de câmeras filmando tudo, e perseguição iniciada.

Marcos Roberto era audaz, corajoso, mas não era insensato. Ele sabia que uma perseguição, agora já contando com várias viaturas, poderia implicar em coisa mais séria, e se havia algo que ele prezava, era pela única vida que tinha. Rendido, preso, conduzido, autuado e em seguida transferido para o presídio, amargava, naquela noite, o cálice sem sabor da angústia da vulnerabilidade; aquele frio no estômago que apenas as presas sentem diante do caçador, e que faz remontarem-se os flashes de vida na mente desgovernada.

– Mas, meu senhor, eu não tenho esse dinheiro agora.

– É o seguinte, “madama”, se o dinheiro num tiver na conta amanhã cedinho, ou se disser alguma coisa pra polícia, seu filho aqui já era.

– Ai, meu Deus. Tá bom, tá certo. Eu faço isso. Só não machuque meu filho, não faça nada com ele. Eu lhe peço, por favor.

– Faça o que eu tô mandando e tudo vai ficar bem. Até.

E Marcos Roberto ficou “bem”, e a mãe dele pagou o “resgate”, e a polícia nunca soube de nada.

Aparentemente existe um mundo que nunca sabe de nada. O fato é que, por mais que não concebamos o que pode ser imprevisível nas nossas vidas, quando as coisas acontecem passam a ser vistas como previsíveis.

A vida real por trás dos muros de um presídio, descoberta por Marcos Roberto, e a vida por trás da vida de Marcos Roberto, descoberta por sua mãe, fazem parte desse mundo incógnito, em que olhares mostram impressões, mas escondem os desejos da alma. Para descobri-lo, basta um olhar. Basta uma primeira noite fora de um mundo que nunca sabe de nada.

 

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