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A Festa do Crote

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on June 3, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

 

– Eu não acredito, Nina. Você pegava as flores do cemitério?

– Claro! E qual era o problema? Elas eram lindas, estavam sempre bem arrumadinhas, tinham uma fragrância maravilhosa… e eram de graça.

A conversa girava em torno do hábito delicado de uma menininha de dez anos que presenteava os seus com toda variedade possível de flores – rosas, crisântemos, girassóis, bromélias, até as hortênsias e os lírios eram recrutados pela avidez da garota na hora das homenagens. Honras não muito convencionais, é verdade, já que eram colhidas imediatamente após os seus repousos, mas o que tinha isso demais, na cabecinha serelepe de Nina, se o importante era a alegria que causavam?

As flores tinha um certo poder mágico sobre ela. Inebriavam-na com seus cheiros suntuosos e abriam em sua mente largos portões em busca das fantasias de menina, nas quais ela se via mergulhando em mares azuis, amarelos e rosas, correndo em campos imensos, mas sempre, ao final, presenteando alguém com suas obras refeitas, transformando em pura alegria o que há pouco representava tristeza.

-Certo. Tudo bem. Mas, Nina, diz uma coisa… você era criança e eu vejo que a intenção era lúdica, bonita mesmo, mas você não acha estranho, não? Pôxa… num cemitério?! Não tinha medo, não?

-Rapaz, quando eu via aqueles crotes…

– Não seria cróton?

– Não, não. Crote mesmo. Então… quando eu via aqueles crotes, eu não conseguia me conter. A intenção era mesmo de arrumar os buquês, que já vinham lindos de morrer. Nossa… eu falei “de morrer”?

– Falou sim, mas não te preocupes, eu sei que viver e morrer, neste caso, estão tão próximos que sua referência tá certíssima.

– Era algo magnetizante, sabe? De alguma maneira, aquilo era pra mim como que uma ajuda a quem estava se despedindo desse mundo. Quando eu pegava aquelas flores e as distribuía, era como se eu estivesse repassando ao mundo uma parte do bem querer que as pessoas queriam demonstrar ao levá-las ao cemitério. Eu me sentia uma mensageira do bem. Uma mensageira de coisas boas e que não se vêem.

A descrição que ela fazia era algo que realmente nos conduzia a um pensamento de ternura, uma leveza de espírito que até nos colocava dentro da pele dela, e éramos nós mesmos os arquitetos das ações. No fundo, nós nos víamos aguardando os cortejos passarem e já íamos meio que compondo os formatos dos buquês que iriam ser o alvo do nosso saque. Uma imersão num sonho que não era nosso e que, na verdade, nem sonho era.

Era uma viagem que eu já tinha visualizado. Um frenesi que em Felicidade Clandestina nós dividíamos com a personagem que roubava rosas dos jardins frondosos, mas que aqui, na saga de Nina e seus crotes, nós compartilhávamos com uma heroinazinha que irrompia por entre portões e gradis, por entre covas e túmulos, buscando suas flores e sonhos, seus ímpetos e anseios, buscando o sorriso grato pelas flores ganhas.

– Uma coisa, porém, você ainda não disse. Por que, ao contrário da menina de Clarice, você resolvia fazer tudo sozinha?

– Ah, meu bem. Era tudo muito simples. Não havia uma sensação de solidão, mesmo porque os crotes eram quem me acompanhavam. Eu me sentia estranhamente segura com eles. Eu lhes falava muito, a bem dizer. Acho até que ninguém entenderia muito bem, caso eu chamasse. Você, por exemplo, o que diria se, aos dez, fosse convidado por uma amiguinha a apanhar flores recém postas num cemitério, mesmo elas sendo deslumbrantemente belas e sendo a intenção maior de presentear pessoas?

– Eu pensaria que você estava meio pinel.

– Pois é…

– Sem dúvida, Nina, a história é linda. Empolgante e sensibilizadora. E eu me arrisco até a dizer qual a data do ano que você mais gostava, na sua infância.

– Nem precisa, querido. Dois de novembro.

 

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