Allen Porter Mendenhall

Archive for the ‘Creative Writing’ Category

Amiga do Peito

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on May 20, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

 

– Ama?

– Claro, amor.

– Diga.

– O quê?

– Que ama.

– Amo você.

– O quanto?

– Quanto o quê, amorzinho?

– O quanto você me ama, oras.

– Muito.

– Muito, quanto?

– Muito mais que o muito.

– E até quando?

– Até quando?

– É. Até quando você me ama, ou vai me amar?

– Pra toda vida, amor.

– Essa e outras vidas?

– Olha, meu amor… que eu amo e por quem respiro, são três horas da madrugada, eu tô cansadíssimo, tenho que acordar cedo e não sei se vou conseguir desse jeito.

– Ah, Rafa… você sabe muito bem que eu sou insegura mesmo, e que pelo fato de eu ser tão apaixonada por você eu preciso confirmar isso sempre.

– E isso inclui o meio, exatamente o meio, da madrugada, Pati?

– Mas eu não tenho culpa se isso às vezes me aflige.

– E por que isso te aflige, amor?

– Pense comigo. Eu sou louca por você.

– Sei.

– E não me vejo longe de você.

– Entendo.

– Então… se o que você sentir por mim não for o mesmo, ou na mesma quantidade, ou na mesma intensidade, eu vou ficar vulnerável, né?

– Vulnerável?

– Totalmente vulnerável.

– Pati, meu amorzinho. Você andou falando com alguém, hoje?

– Eu?

– É. Você.

– Por que você está me perguntando isso?

– Porque, minha vida, eu conheço muito bem a mulher com quem eu estou casado há cinco anos. E ao longo desses sessenta meses, sempre que alguma das suas amigas fala com você um assunto mais polêmico, você simplesmente não dorme, como agora, e não sossega até me acordar no meio da noite, como hoje. Quem foi?

– Foi a Fabi.

– Ai, de novo não. Novamente a Fabi? E o que ela te falou dessa vez?

– Ela apenas me repassou. Foi algo que as meninas do trabalho comentaram ontem.

– E eu já to até imaginando. A Fabi tem um jeito todo especial de conseguir repassar coisas que foram comentadas pelos outros.

– Ah… mas isso não vem ao caso.

– Realmente não. Conta.

– Pois é. Ela me disse que as meninas comentaram, e você sabe muito bem que as meninas…

– Pati, não enrola. Fala direto.

– Ela me disse que hoje em dia os homens são extremamente claros naquilo que sentem; que eles falam muito pras mulheres o quanto as amam, e que não conseguem viver sem elas. Essas coisas.

– E baseada no quê, ela disse isso?

– É aí que entram as meninas. Como você sabe, elas são solteiras, estão sempre em contato com outras pessoas solteiras e têm visto que os homens com quem se relacionam são assim, carinhosos, atenciosos e falam sempre. Ela até acha que tem a ver com essa onda de metro-sexualismo e tudo.

– E onde é que eu entro nessa história toda?

– Pois é. Elas também comentaram que nunca vêem você falando.

– Elas nunca me vêem falando?

– É.

– Que eu amo você, e que sou louco por você, e tudo?

– Isso.

– E o que você acha disso?

– Eu? Bem… não sei ao certo, e é por isso que estamos conversando, não é não?

– Olha, Pati, embora metro-sexualismo não seja o meu forte, e na verdade eu sequer saberia dizer o que faz, como se veste e como fala um metro-sexual…

– Eu te dou umas dicas, amor…

– Não, não precisa. Posso continuar?

– Claro, amor.

– Meu amor, não vai ser a quantidade de vezes que eu diga o quanto a amo que vai dar qualidade ao que sinto por você. O meu amor é presente, é profundo, é cristalino e verdadeiro, e com toda certeza já existia há muito tempo, antes mesmo de nos conhecermos. Prova disso foi o meu olhar patético pra você, na primeira vez que te vi, dizendo pra mim mesmo “eu amo essa mulher desde sempre; eu sonhei com ela; eu torci por ela… eu vivi pra ela.”

– Oh, amor…

– É também possível, meu amor, que eu não esteja falando o suficiente pra você que te amo, mesmo porque, Pati, dizer-lhe isso a cada minuto, toda hora e todos os dias, ainda não atenderia o meu desejo e nem ao que você merece. Você que merece tanto, e que amo tanto. Saiba, entretanto, amorzinho, que vou buscar melhorar. Mas se, ainda assim, eu não parecer a essência do que seria um aplicado “metro”, eu ainda serei o mais apaixonado, o mais absolutamente devotado e o mais amavelmente entregue dos homens.

– Ai, amor. Isso foi tão lindo. Agora eu me sinto bem melhor.

– Jura?

– Juro.

– Vamos dormir, então?

– Vamos.

– Amo você. Muito.

– Também te amo, Rafa.

– Tá bom.

– Tá bom? Mas eu pensei que você fosse dizer “muito mais que o muito”…

– Boa noite, amor.

 

Caxito

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on May 13, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

Se um dia me perguntarem o quanto o Caxito foi importante pra mim, a resposta vai ser rápida e sóbria, o que poderá parecer um sarcástico paradoxo, em função do que eu via naqueles dias – um reduto de conhecimentos. Posso até estar provocando sobressaltos e ressentimentos a toda ordem de pensadores ou intelectuais, porém, guardadas as proporções e respeitadas as comunidades que formaram grandes escritores, foi daquela fonte ali, daquele conjunto de coisas, do Caxito, que comecei a contrapor razões aos fatos, possibilidades à realidade e necessidades às perspectivas.

A essa altura, o leitor já deve estar se perguntando: “O que vem a ser esse tal de Caxito, afinal?”. Pois bem, trata-se de um bairro, mas não um bairro qualquer, é na realidade um grande conglomerado de pequenas coisas. Um conjunto inicialmente organizado de ruas, que vai sofrendo uma espécie de mutação sócio-habitacional-cultural e, ao final, toma uma forma pretensiosa de bairro. Lá, como poucos, tive a oportunidade de ver, na letargia de atitudes, nas expressões idiomáticas, nas feições frustradas e nos bêbados inveterados, que aquela junção toda provocava uma espécie de comoção geral, de comiseração geral, em cada um e em todos, gerando certa acomodação natural frente às dificuldades, o que, invariavelmente, como num ciclo vicioso, gerava mais letargia, frustração e embriaguez.

Dos amigos da époça, lembro de todos – pelo menos de seus apelidos: Vaíta, Mi, Biuzinho, Nino, Novo Grande, Leto, Berval, Van e Dilá, que eram, em grande parte, aprendizes daqueles moradores mais antigos, conhecidos por serem cheios de deliciosas estórias mentirosas, o que os endeusava diante daquela gente; João Bocão, João Boi, Coquilha, Gerson Coquinho, Cara de Prega, Beto Perneta e Ontôin Cotó poderiam estar inseridos em qualquer obra autoral, já que traduziam o estereótipo de personagens literários; Cremilda Doida, com seus acessos, freqüentemente era atendida por minha mãe, alvo preferido também de Ernestina, uma bêbada sorumbática que, em seus píncaros de porre, chegava graciosamente em nossa casa, às duas horas da madrugada, gritando: “Santinha, meu amoooor!”. Entretanto, de quem eu mais lembro, na verdade, é de Vado Pipa. Um ser absolutamente hilário – quando estava bêbado, claro – que exercia um certo fascínio na garotada, creio eu pelo fato daquele futuro tragicamente almejado, de tornarem-se também bêbados divertidos. Lembro, inclusive, uma ocasião quando retornava pra casa, com meu pai, e vi nosso personagem, com uma garrafa de cachaça, totalmente ébrio, fitar-nos e cantar.

– Seu Santos… ela me deixou e foi morar com o guarda. Ela me deixou e foi morar com o guarda…

Trôpego, ainda tentou equilibrar-se e bambamente estatelou-se na lama, entre risos e outras cantorias, no que aproveitamos pra sair dali. O mais risível, porém, aconteceu quase duas décadas depois, quando numa noite dessas levava minha mãe de volta pra casa onde morei, e exatamente no mesmo lugar, com uma garrafa na mão, vejo Vado Pipa, velho, resistente, indiferente… e que me cumprimenta, cantando.

– Ei, Hugo… meu bom… ela me deixou e foi morar com o guarda. Ela me deixou e foi morar com o guarda…

Sorri compulsivamente, deixei minha mãe e notei o que há tempos não tinha me dado conta – ali ainda era o Caxito.

Freqüentemente eu me perguntava o que atraia tanta gente àquela conversão de ruas, e não fosse uma explicação dada por João Bocão a meu pai, seguramente ainda teria as mesmas dúvidas. A conversa surgiu durante um “rasga-rasga” ocorrido uma única vez, na sede do Palmeiras Esporte Clube – única gafieira do bairro – e que se estendeu, rapidamente, a todas as ruas.

No Palmeiras, às sextas e sábados à noite, o que se via era uma verdadeira profusão de cores, luzes e cenas hilárias, transformando aquelas pessoas que nos pareciam normais, perecíveis, alcoólatras e conformadas, em personagens vigorosos, alegres e irreverentes. Era uma pena que minha mãe não me deixasse sequer chegar perto do clube nessas noites, por isso eu tinha de fazer verdadeiras manobras pra entrar na cozinha de casa, sair pela porta dos fundos, pular o muro de Dona Lídia, passar pelo terreiro de Dona Cotinha para, depois de aproveitar o descuido de Cara de Prega na portaria, ter meus quinze minutos de puro êxtase, vendo as carícias suadas, os beijos excitados, as mãos nos peitos e as danças frenéticas ao som do merengue, tempo suficiente pra retornar sem ser percebido, e pensar no que aquilo representava pra um menino de onze anos.

No carnaval de 1980, dentro do Palmeiras, ocorreu um episódio que representava bem esse misto de coisas novas e impensáveis – o rasga-rasga. Era a quarta-feira de cinzas, mas nem por isso a alegria bizarra daqueles foliões, travestidos daquilo que, melhor que ninguém, sabiam retratar, tendia a diminuir. E o interessante era ver que, enquanto em Olinda o último dia era visto como algo absolutamente natural, buscando estender aquelas horas restantes tão somente pelo sabor que elas tinham, sentindo a falta do sobe-desce das ladeiras, do frevo e do maracatu, no Caxito parecia uma obrigação comum a todos a extensão do último dia de festa, da última tarde que, indo embora, levaria também o cobertor ilusório de toda aquela banal realidade.

A certa altura, Beto Perneta, que ainda encontrava-se de pé por pura insistência, já que de longe se notava, pelo tanto que tinha bebido, não saber sequer onde estava, puxou Cremilda Doida pela Cintura, certamente querendo fazer parte do trenzinho em que ela estava, e num ato meio reflexivo ainda deu algumas passadas naquele cordão, mas como o trem corria em círculos, o pobre Beto não conseguiu parar suas pernas, de tamanhos diferentes, e quando escaparam-lhe as mãos – àquela altura já na bunda da Doida – só conseguiu segurar-lhe a saia, que veio com ele, cambaleando, topando, gritando e só não se ferindo na queda porque conseguiu agarrar-se na camisa de João Boi, que foi rasgada na aterrissagem. Ainda sentado, ileso, com a mão da camisa no peito e a mão da saia na cabeça, vendo Cremilda – o exemplo da calma – com a mão estendida, esperando a veste, Beto Perneta respirou fundo, olhos fechados e cara azeda.

-Êita, que é bacalhau puro!

A risadagem, claro, foi generalizada e Cremilda nem pensou muito, o que não era surpresa pra ninguém, e arrancou, rasgou e jogou pra todos os lados os pedaços da camisa de Beto Perneta.

O que se sucedeu foi uma verdadeira tendência de rasgadura geral. Via-se pai rasgando genro, neto rasgando sogra, primo rasgando nora, desconhecido rasgando conhecido. A tal ponto daquilo tudo ultrapassar as paredes do clube e se estender às ruas, onde quem quer que fosse passando virava uma nova vítima dos contumazes rasgadores – que àquela altura eram todos – independente da qualidade do tecido, cor, molde ou detalhe. Pessoas indo pra casa, fugindo da folia, indo ao trabalho, ao hospital, voltando, todos eram sumariamente agarrados e rasgados, de uma maneira que em determinada hora o que se via eram os corpos seminus, no máximo com suas cuecas, anáguas ou sutiãs descoloridos e surrados, sobre um tapete enorme de retalhos do que haviam usado e, assim como que em transe, rindo daquele encontro de alegria carnavalesca, debilidade e descompromisso com qualquer pudor.

Nessa hora, com meu pai, no terraço de nossa casa, de onde assistíamos a tudo, João Bocão se aproximou dizendo:

– Sei não, Seu Santos… ou endoidô tudo, ou tá tudo querendo endoidá.

E nessa hora, mesmo que involuntariamente, com seu trocadilho, João me deu a luz do que era o óbvio. Quem estava ali, não só naquela hora, mas quem vivia ali, alimentava-se ali e fantasiava seus dias ali, estava querendo de fato “endoidá”. Mas, endoidar para demonstrar que não eram só as mazelas que faziam parte de suas vidas, mas também os sonhos. Sonhos de alegria e esperança. Sonhos, sobretudo, por algo que em nenhum outro lugar, com tanta intensidade, eles iriam atingir – a liberdade de estarem ali; o sonho pelo despudor de rasgarem suas roupas, como quem arranca uma chaga do corpo, e de peito, coração e alma abertos, demonstrarem que sempre seriam maiores do que aquelas feridas.

Na manhã seguinte, ainda a olhar aquela espécie de campo de batalha de tecelões, Vado Pipa se aproximou de mim e num de seus acessos de lucidez – lógico que irremediavelmente raros, mas que nem por isso deixavam de ter a importância real em nossas impressões de mundo – comentou:

-Coisa linda, né?

– O que é lindo, Vado?

– Esses pedaços de roupas pelo chão. Olha lá a camisa de Nino, o meu filho; o calçãozinho de Pirrita, irmão de Getúlio… tem até a saia de Cremilda, ali ó…

O que me impressionava é que a cada peça, ou resto dela, havia uma identificação do dono e um fato pitoresco.

– Êita! Aquele sutiã ali eu conheço. Neide do Pão tava com ele na sexta-feira do carnaval, lembra? Tava de blusa branca, choveu e o biquinho do peito passava por esse buraquinho aqui. – Enfiando o dedo mínimo pelo orifício.

Nessa hora rimos bastante e eu fiquei deslumbrado com aquele sujeito pequeno, franzino e das pernas tortas, que conseguia ser tão preciso nas suas pequenas coisas e despertava um curioso sentimento de admiração em quem se colocava ao seu lado, estampando no rosto um sorriso de contentamento e realização por estar ali, sempre, todos os dias, transformando o comum em algo singular e especial.

– Sabe, Hugo, a gente precisa melhorar esse negócio. – Eu não entendi, mas Vado continuou.

– A gente precisa organizar melhor esse carnaval. Como é que esse povo brinca assim e joga a roupa em tudo quanto é lugar? Tudo bem que tá rasgada, mas poderiam jogar num lugar só, né não?

Os paradoxos eram corriqueiros no Caxito, e aquele momento se tratava de um deles. A grandeza de um pensamento humilde e a profunda e irretocável banalidade de sua existência. Aquelas pessoas me mostravam o quanto a sensibilidade, a delicadeza e a fatalidade poderiam fincar suas marcas em minhas memórias, fazendo-me refém de meus medos e, ao mesmo tempo, mostrando-me a beleza de que tudo aquilo o que é bom está ao nosso alcance.

Naquela hora, João Bocão se aproximou e foi logo fazendo seu comentário:

– Eu acho que vai chover, hoje…muito.

 

The Country Lawyer Explains

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Poetry, Writing on May 6, 2015 at 8:45 am

Amy Susan Wilson

Amy Susan Wilson has published in numerous journals, including This Land, Southern Women’s Review, and elsewhere. Fetish and Other Stories, which focuses on Southern women, is forthcoming May 2015, Third Lung Press. She is Editor of Red Truck Review: A Journal of American Southern Literature and Culture and Publisher, Red Dirt Press. (www.redtruckreview.com). She publishes attorney Steven L. Parker’s debut novel, “BS,” release date of June 2015. 

“The Country Lawyer Explains”

Goat blood gushing
like Turner Falls
after a flood;
Rascal
your number one bird dog
settled into truck bed,
flip out the side
into that ravine,
fridges
sofas—
goats
thrown out back
the pull-trailer
Bethel Fork Road.
Seven necks
wishbone-easy
snap.
Ford 250 axle busted up
good as a boxer’s face.

Elmore charging outta his pen
as you chug the rut-red dirt
road—lying in wait he was–
Elmore
knowing to dart
just the right millisecond
to crash pancake-thin
Ford 250 and all,
Elmore’s
laugh-smirk-snort
the sure-fire sign
of a serial killer
you say.
Welp, Elmore enjoyed takin’ out
           meat goats,
           ole Rascal.
           Ya didn’t see him laugh;
           truck engine
           blazin’ Hades
           goat blood
           galore.

II.

Uncle Roy,
Aunt Wanella,
I don’t doubt
the Internet says
you can prosecute a pig
some parts the world
but not
Pottawatomie County,
Oklahoma.
Sure, blame our federal
government,
Obama,
But animals lack culpability.
I agree
smells like rain
come this hour.
Elmore’s gonna muck
in mud
sun his big fat
wad of belly,
his favorite
slaughter hog-thing
beyond murdering meat goats,
God’s finest bird dog,
the injustice
of reward.

Salto Alto

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on April 29, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

– Realmente as lembranças são boas, mas você tem de reconhecer que nós chegamos a esse ponto graças às suas implicâncias.

– Implicâncias?! Meu querido… implicâncias são nada, diante dessa sua postura…dessa intransigência… desse machismo todo. Machismo, isso…é esse o termo.

– Agora você fala em machismo, Elvira, mas na época ficava toda dengosa dizendo “como me fortalece essa sua preocupação, benzinho”. Vê lá aquele cara, o dos óculos na boca, eu tenho certeza que ele tá dizendo pra ela que o decote tá muito escandaloso.

– Olha, Cuca, se ele tá falando algo a respeito do decote, é o que vai fazer com ele depois daqui. Não vê aquela cara?

– Cara de quê? De quê?

– Esquece. Poderia pegar outra taça pra mim, por favor?

– Pego, desde que você não me peça com esse jeitão de juíza de paz em audiência, afinal de contas, ainda não estamos separados.

– Cuquinha, anjo, pega uma tacinha pra mim, lindo?

– Você sempre usava “anjo” quando não tava legal ou queria brigar.

– Pega uma taça, pô!

– Então, Cuca, como estão as coisas? A Elvira tá linda hoje, heim?

– Uma diva por fora e uma centuriã por dentro. Só tá dando estocada, Marcão.

– É assim mesmo, rapaz. Você não viu quando eu me separei da Sandrinha? Todo santo dia era uma discussão… e à noite também.

– Só que a Sandrinha não passava na tua cara que você tinha estragado tudo. Pra falar a verdade, eu nem via vocês discutindo tanto.

– É… diferentemente da Ester, ela aceitou o desgaste da relação.

– E a Ester não tá aceitando?

– Ela não acredita em desgaste da relação, meu querido. Ela vê o término do casamento como o final inevitável de uma relação de interesses, mesmo que, no nosso caso, o interesse maior fosse apenas sexo. Toma esse chileno aqui.

– Não tinha o cabernet argentino que você gosta, mas esse chileno aqui é divino.

– Edvaldo Augusto… esse argentino a que você se refere foi quando nós começamos a namorar, e eu nem gostava de vinho na verdade.

– Tá vendo só? Eu me esforço, procuro ser um cara atencioso, e o que ganho sempre? Patada.

– Calma, Cuca. Lembre-se que estamos discutindo nossa relação.

– No aniversário da filha do nosso melhor amigo?

– Do seu melhor amigo. Ele deixou de ser o meu, quando terminou com a Sandrinha.

– Mas que barbaridade, Elvira. Você… uma mulher inteligente, moderna, que normalmente aceita os defeitos e decisões das pessoas, com esse preconceito ridículo.

– Você acha?

– Acho.

– Engraçado. Eu poderia jurar que sendo gêmeas univitelinas e tendo o Marcão começado com a Ester um mês depois que eles acabaram, isso já seria motivo suficiente.

– Olha quem tá chegando.

– Oi, pai.

– Filhinha. Cuca. Tô interrompendo alguma coisa?

– Imagina, seu Berto. A gente tava somente divagando sobre contingências de relação a dois.

– Especialmente quando essa relação a dois diz respeito a duas pessoas muito próximas, que nem estão tão próximas assim.

– Minha gente…faz trinta anos que eu e sua mãe decidimos não desgastar a relação com esse tipo de discussão.

– Mas vocês já estão separados há vinte anos.

– Isso não importa para o contexto. Mas pelo menos nos dez primeiros anos deu certo.

– É o que eu tento sempre dizer pra ela, seu Berto. Não adianta discutir o que pode ser tranqüilamente relevado.

– Acontece, Cuca, que a arte de relevar, tão eficientemente desempenhada por você, é exatamente o que agrava as coisas. Como agora, por exemplo.

– Agora? Qual exemplo? O que eu fiz?

– Você me trazendo aqui, na casa do “ex” da minha irmã, depois d’ele ter feito o que fez, achando tudo normal.

– Mas o que tem de errado numa separação e num novo casamento?

– Realmente não tem nada errado, minha filha.

– Ocorre que ele já traia a Sandrinha antes de separar, papai.

– Realmente tá errado, Cuca.

– E o pior é que esse aí sabia de tudo.

– Isso não é verdade, Elvira, eu apenas achava.

– Ah é? E quem foi que apresentou a Ester ao Marcão?

– Eu, como você sabe.

– Só não sabia que vocês já tinham namorado antes.

– Ela foi minha namorada aos treze anos, Elvira.

– O que é pior, porque esses sentimentos antigos nunca passam e nem são esquecidos.

– Nossa, Elvira, dessa vez você tá ultrapassando todas as possibilidades de imaginação fantasiosa.

– Uma imaginação que hoje tem uma filha aniversariando e não tira os olhos de você.

– Agora você exagerou. Tô me sentindo até ofendido com isso. Eu jamais teria alguma coisa com a mulher do meu melhor amigo.

– Minha filhinha… eu acho que você tá saindo do foco também.

– Se tem algo que eu não perdi foi o foco, papai. O foco nos olhos da Julianinha, verdes como os do Cuca; o foco no nariz, arrebitado feito o do Cuca, e até no jeitinho dela sorrir…exatamente como o do Cuca.

– Essa foi demais… uma filha com a Ester. A Julianinha ser minha filha é a coisa mais maluca que eu poderia ouvir nesses dez anos.

– Eu também.

– Papai…o senhor tem que ficar do meu lado.

– Bem, com licença, acho que meu celular tá vibrando. Filhinha. Cuca.

– E o que tá vibrando agora é a minha cabeça. Olha , Elvira, a gente se fala em casa. Pode ficar com o carro que eu pego um táxi.

– Isso. A consciência já tá pesando.

– Seu Berto, empresta o telefone?

 

Avelino

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on April 15, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

Já fazia parte da rotina dele sentar-se no tronco em frente à casa, olhando aquela terra árida que não tinha cheiro de nada, contemplando uma estrada barrenta, sem outras casas além da dele e sem visões de um tempo bom e de boas lembranças.

A imersão naqueles pensamentos era diária, assim como eram diários os sonhos de uma vida sem aquele sofrimento todo. Não era nada físico. Ele nunca fora castigado pela mãe, que além de saber do empenho dele na organização dos plantios e no trato com os animais, reconhecia os valores de um filho bondoso e preocupado com os seus.

O sonho era o de deixar todo aquele cenário seco e sem vida, com uma sede eterna de tudo o que refrigera a alma e alenta um semblante entristecido. Dona Maria da Luz, a mãe, já tinha notado aquele olhar, e também já tinha imaginado que uma partida dele não era algo remoto, ao contrário, considerando que todos daquela idade já tinham partido dali, ficando apenas os mais velhos e as crianças. Ela sabia que isso era possível, mas rezava pra que não se concretizasse, afinal eram somente eles dois naquela casa, além da irmã menor, que por razões óbvias não daria conta de tantas responsabilidades naquele sítio.

Ele avaliava tudo e sabia bem o que representaria uma partida, deixando as duas com toda aquela carga de coisas, mas muito mais com a impressão de que ele estaria fugindo de algo que não poderia vencer. E de fato ele não conseguiria jamais. Como superar tanta seca, tanta fome, tanto sol, tanta solidão e abandono? Ele não conseguiria jamais. E além do mais, agora estava mais focado do que nunca, principalmente depois da conversa com José Pedro, amigo de infância, que retornara da capital e estava ali por aquelas bandas visitando parentes, e que também lhe fizera ver que a única alternativa era o êxodo, a saída, a fuga, se assim entendesse. Mas não uma retirada desesperada e sem propósito; não um rompimento com suas raízes e história, com sua família e passado. Seria uma saída estratégica, momentânea, apenas o tempo necessário para uma conquista de vida, de posses e de solidez, após o que retornaria e resgataria os que ficaram.

– Mas Zé… como eu poderia deixar minha mãe e minha irmã aqui, assim?

– Avelino, rapaz… ficando aqui é que você vai ajudar menos ainda, homem. Vai ficar nessa vida sofrida, sem esperança e sem futuro. Lá, pelo menos, você vai ter uma garantia, um emprego e uma moradia, até poder se arranjar sozinho.

Era algo em que ele não conseguia parar de pensar. Os últimos anos tinham sido duríssimos, sem perspectiva alguma do que pudesse trazer qualquer mudança, porém ele também sabia que havia algo além da sofreguidão. Havia uma certa sensação nostálgica em ser o arrimo da casa e a pessoa em cujos ombros pesavam todas as dependências. Era uma sensação incoerente, ele sabia. Como sabia também que coerência era um artigo extremamente raro naquele lugar, especialmente naqueles dias. E naquelas horas ele se sentia resoluto.

Partiu, enfim, na lua cheia de dezembro, querendo acreditar que olhando pra ela teria alguém com quem conversar e com quem se ressentir. Saiu enquanto todos dormiam, obedecendo ao que a mãe dissera, ela que não suportaria abraçá-lo na despedida e nem olhá-lo nos olhos pra desejar-lhe sorte. Nesse pedido, ele sabia bem, estavam todos os clamores calados e todos os choros contidos que lhe seriam ditos se ela o visse partir. Embora forte, a tez enrugada da velha sempre estremecia quando o assunto envolvia partidas, com os olhos lacrimejando e o olhar cabisbaixo, sem qualquer palavra, apenas soluços compassados e a respiração perturbada. Não era a primeira vez que ela passava por aquilo. O marido, muitos anos antes, tomara a mesma decisão, e com o mesmo ímpeto buscou uma fuga ensandecida, deixando todos aos cuidados de Dona Maria da Luz e de um futuro incerto, ou certo, já que, conforme ela previu, ele não mais voltou.

Agora, porém, o quadro era outro e a saída do filho soava como algo apocalíptico. Como, afinal, iriam sobreviver? Como suportariam, sem a força, a perseverança e a solicitude do jovem, àqueles tempos de penúria? Mas em momento algum qualquer palavra foi proferida. Nada foi dito. Nenhum lamento saiu dela, além do lamento de uma mãe pela perda do filho. Um filho que não voltaria, envolvido que seria por um mundo grotesco. Um mundo novo e feroz, que de tanto açoitar-lhe com maldade e sofrimento, apagaria de sua memória as lembranças de vida e os laços com o passado, e apagando o passado, apagaria o futuro delas.

E foi nesse embaço de coisas que ela levantou de manhã, sentando no tronco em que o filho sempre sentava e olhou aquele risco de nuvem que mais lembrava um galho de aveloz. Contemplando uma estrada barrenta e olhando aquela terra árida que não tinha cheiro de nada, ela sentiu que o sol estava mais quente do que de costume e o som do silêncio era ainda mais triste que outrora.

 

 

 

Um Céu Imenso

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on April 8, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

A cadeira se encontrava exatamente no mesmo local. As teias que a recobriam davam-lhe um contorno sutil, de modo que o quadro de abandono do quarto era encoberto por aquele manto prateado, luzindo ao abrir da janela e mantendo intocáveis as lembranças há muito guardadas de uma época de alegria, dor e tristeza.

Remanescendo de uma turva lembrança, que embora agora estranha, era ainda uma visão que me enternecia muito, vi tomarem forma as estantes de livros, a cortina cinza que combinava com aquela extensão de céu sempre chuvoso, e que me trazia, junto com as gotas, o toque mágico do horizonte, quando estendia o rosto pela janela e permitia à chuva desempenhar o papel de confidente e mensageira de uma embalada esperança. Senti a mesma brisa daquelas noites solitárias, daqueles momentos de intangível leveza, em que me sentia num vôo silencioso, rasgando ares sem fim e tendo a minha frente apenas o infinito, irretocável e belo, chamando-me a um mundo desconhecido do meu e a uma vida desconhecida da minha.

Senti o mesmo tremor no assoalho do quarto, de quando ouvia os passos na escada e num rasgo impetuoso de agonia gelava-me o sangue, sufocava-me o peito e eriçava-me o coração, num batimento louco arritmado, vendo surgir, gigantesco e enfurecido, a imagem de meu pai.

– Moleque! Eu disse que não queria você com aquela vadia.

– Ela não é vadia. Só está querendo me ajudar.

– Ajudar a tirar você dessa família, de junto dos seus irmãos.

Meu pai jamais imaginaria o que era estar ao lado da Dona Mariana. Impossível também para um menino de doze anos pensar nela como um ser humano normal. Impossível não ser hipnotizado por uma profunda sensação de êxtase quando a via, em qualquer que fosse o momento, especialmente no primeiro cumprimento do dia.

– Tudo bem, Vitinho? Hoje você parece muito mais encantador e sorridente do que da última vez. Andou ganhando algum presente?

– Não, senhora. Só tô feliz porque tô mesmo.

Hoje eu vejo, sentindo ainda o veludo daquela voz, que aquele jeito cândido, aquela beleza sublime de quem transpirava ternura, era única e simplesmente o que ela era. O seu tom e o seu toque, o rosto delineado lembrando a face do bem, e um sorriso angelical que irradiava pura compaixão, deixaram-me instintivamente apaixonado no primeiro segundo que a vi.

Eu a havia conhecido no mesmo dia em que minha mãe morrera. Ao ver-me chorando no corredor do hospital, sem jamais termos-nos falado antes, ela me deu um abraço afetuoso e alisando minha cabeça e limpando minhas lágrimas, teceu-me os mais belos comentários a respeito de minha mãe que ninguém jamais dissera. Citou frases que ela havia dito, pessoas que havia ajudado e fez-me ver, da maneira mais cristalina possível, que o fazer o bem era o valor mais inalienável que poderíamos ter e repassar.

Minha cabeça girava feito um carrossel. Muito mais pela apaixonante presença daquela diva, do que pelo enredo de dor pelo qual passava naquele dia. Na ocasião não entendi muito bem a iniciativa de Dona Mariana e perguntava-me, a todo momento, o que a movia a tamanho gesto.

Muito mais complicado era tentar entender a reação negativa de meu pai àquela amizade. A fúria que o tomava à simples citação do nome dela deixava-o de tal modo possesso que seus olhos esbugalhavam, a ponto das veias do globo ocular ficarem à vista, a veia da garganta inchar e, a cada berro, chuvas de saliva respingarem em quem o cercasse. Era completamente incompreensível tanta ira por alguém tão infinitamente amável como Dona Mariana.

De toda sorte, e por força de um impulso sempre incontido, jamais deixei de ir aos encontros com aquela minha musa. Apesar do medo das surras prometidas e do calafrio no momento do retorno pra casa, a necessidade de falar-lhe, de ouvir-lhe e de olhar-lhe se sobrepunha a quaisquer sentimentos humanamente conhecidos. O bombeamento do meu sangue aguçava toda a eletrização do meu corpo, e um misto de letargia e ligeireza, de estupidez e genialidade tomavam conta de minhas ações, gestos e sorrisos.

Como era de se esperar, um dia fiz-lhe referência ao ódio nutrido por meu pai, incluindo os detalhes mais constrangedores, à mínima referência a seu nome e, para minha surpresa, absolutamente nada lhe soou estranho. A impressão, inclusive, foi de uma fina dor na confirmação daquelas palavras, no marejamento daqueles olhos e naquele único sorriso, que não foi de um anjo, mas de uma alma ferida por uma estocada, direto no coração, da adaga da amargura.

– E você tem idéia do por quê dessa raiva?

– Não tenho, não. Mas é algo importante, não é?

– Eu já não falo disso há muitos anos. Nesse tempo todo, sempre imaginei que retomar a vida fosse fácil, depois de um duro golpe dado pelo destino. O fato, meu querido, é que os golpes só aumentam de intervalo, mas estão sempre presentes em nossos desígnios, turvando nossa mente e obrigando-nos a trincar nossos risos e enterrar nossos sonhos de felicidade.

Era sem dúvida uma hora difícil para ela, e meio que imaginando algo que pudesse afastá-la de mim a partir daquele momento, senti o meu sangue gelar e a chegada de um medo inapelável incorporou-se às minhas sensações, de modo que fechei os olhos e apenas escutei-a, calmamente.

– Meu amado Vitinho… eu conheci o seu pai muito antes d’ele se casar com a sua mãe. Nós nos amamos muito, mas por uma ironia do destino eu engravidei e tive de sair dessa cidade porque meus pais ficaram inconformados com aquilo. Seu pai nunca me perdoou, embora até hoje não saiba que quando o deixei carregava um filho dele no ventre.

– E onde está ele, agora?

– Infelizmente ele está morto. Ainda bebê, após as complicações do parto, ele não resistiu e os recursos médicos da época não ajudaram. Meu filho morreu aos dois dias de nascido. Se ele estivesse vivo hoje, teria exatamente o dobro da sua idade.

Aquela revelação esclareceu cada ponto nebuloso surgido em minhas indagações internas, e embora ela tivesse divagado por outros assuntos mais amenos, minha mente apenas resgatava aquelas palavras:”(…) os golpes só aumentam de intervalo, mas estão sempre presentes em nossos desígnios(…)”, e por mais que aqueles olhos tristes me chamassem a atenção, eu pensava tão somente na dor daquela mulher, na sua tão contida angústia, embora ninguém pudesse duvidar da alegria que ela sempre nos demonstrava.

Como eu amei aquela mulher! E amei-a muito mais após aquela tarde. Após sentir que apesar de tanta dor, desesperança e eventualmente castigo, seu semblante era do mais sereno amor e enternecimento.

Para minha dor, porém, perdi, naquele instante, minha amada. Ao sair novamente da cidade, dessa vez para não mais voltar, e a exemplo do que ocorrera com meu pai, ela levou consigo, sem perceber, uma parte de mim, a parte que mais me era imprescindível – a alegria de minh’alma.

Tocando agora a janela, onde ao longo dos anos me debrucei, viajo junto daquele meu eu e, planando por um céu imenso, ensaio um contato com Dona Mariana, ícone de meus sonhos e senhora dos meus pensamentos, com quem vivi, cresci e amei, numa vida sem desígnios, sem golpes e sem dores. Numa vida onde ainda era-nos permitido sonhar.

“Excerpt from the last scene of the Mortal Lopez, part two,” by F L Light

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Literature, Shakespeare on March 11, 2015 at 8:45 am

F L Light

A Shakespearean proficiency in meter and rhetoric may to F L Light be ascribed. Nearly forty of his dramas are now available on Amazon, and twenty have been produced for Audible. His Gouldium is a series of twenty four dramas on the life and times of Jay Gould which he followed with six plays on Henry Clay Frick. The whole first book of his translation of The Iliad was published serially in Sonnetto Poesia. He has also appeared in Classical Outlook and The Raintown Review. Most of his thirty five books of couplets are on economics, such as Shakespeare Versus Keynes and Upwards to Emptiness the State Expands.

Excerpt from the last scene of the Mortal Lopez, part two.

Hampton Court. The Queen, Essex and Francis Bacon.

Essex: On matrimonial fortune he’s composed
An essay, which your Majesty may wish
To hear.

The Queen:     How married happenings could mar
My house in horror I have known. O what
A procreant consequence my sire pursued!
Now your unmarried rumination I
Will hear, comparing what I’ve learned so long.

Bacon: In costly hostage, captive usage, are
One’s wife and children all by fortune held,
Being clogs to our contentions for success.
The vigor of attainment is avowed
Without them, and the manliest hunt for fame
Is found in childless hunters for the chance
Of quests. The brightest consummations, sought
With brains, and labored greatnesses, fulfilled
Protractedly with grief, have been pursued
By the unmarried. But no dim incitement,
Concerning readiness for all the cares
Of growth, constrains a house of parents, who
Of future requisites would not be short.
Yet there are some, though for expedience
All unespoused, who hold all future causes as
But futile thoughts. And in unwedded thrift
Some hold that wife and children are at length
Too chargeable. And some immodest opulence
In household ostentation manifest,
Who’d seem most rich without the charge of children.
But motive freedom is the cause for most
Unmarried, who’d for expeditiousness
Be free, remaining self-productively
Resolved, apt to accomplish thoughts of wealth
Or wit. Such fellows think their ruffs and girdles
No less than yokes and subjugative ropes.
No better friends than those unmarried will
You find. As masters, servants or advisers
I see them best, but not as subjects, being
From burdens of the crown inclined to shift
In paced escapes, incumbencies eschewing.
But single days befit a churchman, who,
To no parental charity obliged,
May play the father to his faithful pews.
Yet soldiers matrimonial loyalty
Should have, whose generals, addressing them,
Exhorting furtherance in courage, will
Adduce their wives and children as the troops
Come forth. And Turkish soldiers to extremes
Of baseness run who marriage cruelly scorn.
But to compel humanity what else
But families should be first? And single men,
Though with the means for charity unused,
Are oft unsparing in their spurns of love
Because no wife or child has ever moved
Their mercy. I’ve known women, chastely single,
Who prideful, wrathful, and pretentious were,
As if their chastity permitted them
To chastise all. And wives are likelier apt
For loyalty who know their spouses trust them.
But jealous men incite disloyal wrath.
Wives are concubines in youth, companions
For intact maturity and nurses when
Debilitated weariness declines.
No dubious protest thus a man might bring
To marry at whatever age. But one
Of philosophic name believed there was
No timeliness in marriage for the young
Or old. And all observers have averred
That kindly wives have often churlish men
Of faultiest cruelty, waiting on their spite
Either to savor patience or to raise
In long probation the true worth of kindness.
But of all husbands none was kinder than
Odysseus who preferred his homely crone
To the insatiate immortality
Provided on the island of Calypso.

The Queen: Pangs of unwedded disappointment it
Bestirs in us who’d never grief admit.

Excerpts from “The Trial of Lopez,” by F L Light

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Law, Literature, Poetry, Shakespeare, Writing on March 4, 2015 at 8:45 am

F L Light

A Shakespearean proficiency in meter and rhetoric may to F L Light be ascribed. Nearly forty of his dramas are now available on Amazon, and twenty have been produced for Audible. His Gouldium is a series of twenty four dramas on the life and times of Jay Gould which he followed with six plays on Henry Clay Frick. The whole first book of his translation of The Iliad was published serially in Sonnetto Poesia. He has also appeared in Classical Outlook and The Raintown Review. Most of his thirty five books of couplets are on economics, such as Shakespeare Versus Keynes and Upwards to Emptiness the State Expands.

Excerpt from the trial of Lopez in the Guildhall, London. Behind Lopez and Sir Edward Coke sits a commission of fifteen jurors, including Sir Robert Cecil.

Lopez:      A tortured oneness you demand
In all your towns. This nation’s consonance
Upon tormented uniformity
Depends. Invariable ignorance,
As constant as oblivion, is coerced
Forever, as incarcerated shocks
For all dissenters you account deserved.
Whoever is untortured will be tamed
Erelong. Minacious penalties, immense
In deprivation, mean no differers
Are free. What sanctimonious calumnies
You cast at them, for blank monotony
Suppressing faces.

Coke:                    Lopez, what pertains
To this? Vociferating mutiny
Condemns you, so against the crown you seem.

Lopez: I in the Tower was a tamed attester.
The threatful rack my truthfulness repressed.
I saw my menacers decisive. What
Lord Burghley wished he meant to wrench, as did
Sir Robert Cecil and the Earl of Essex
And William Wade. To them I lied of guilt.
Not striving with their threat, no torture I’d
Endure, too haplessly exposed to speak
My mind.

Cecil:      Thou Hebrew, vilest impotence
Befall you! Liar, be hapless on the block!

Lopez: Cecil, you deceitful statuette,
What can you state but a resentful threat?

Cecil: Asseveration soulful I believe
That says thou liest, in this assemblage blurting.

Lopez: Your crooking of my cause befits a crossed
Deformity whose manliness is lost.

Cecil: Corrupted pest! As deathful as your care
A traitor is with all the tricks you bear!

Lopez: You queenish midget, whom gigantic mocks
Should judge, be found a proditory fox!

Coke: Leave insultation, losel! Who are you
To counter Robert Cecil with contempt?
Now you commissioners, your votes in sums
Of guilt or innocence discover here.
Either of treason to her Majesty
Or for acquittal in this case hold forth.

 

Excerpts from “The Mortal Lopez,” by F L Light

In Arts & Letters, British Literature, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature, Poetry, Shakespeare on February 25, 2015 at 8:45 am

F L Light

A Shakespearean proficiency in meter and rhetoric may to F L Light be ascribed. Nearly forty of his dramas are now available on Amazon, and twenty have been produced for Audible. His Gouldium is a series of twenty four dramas on the life and times of Jay Gould which he followed with six plays on Henry Clay Frick. The whole first book of his translation of The Iliad was published serially in Sonnetto Poesia. He has also appeared in Classical Outlook  and The Raintown Review. Most of his thirty five books of couplets are on economics, such as Shakespeare Versus Keynes and Upwards to Emptiness the State Expands.

Speech of the Inquisitor

Scene: The Tower of London. William Wade the Inquisitor comes forth. Ferreira lies on a pallet in background.

Wade: Jailers are omnipotent in England.
Imprisoned alteration of the truth
We proffer. Catholic prisoners to warped
Incarceration of their words submit,
A tortured metamorphosis enduring.
In twisted transmutations they must truth
Convey or harsher twists will set them right.
What may be realized here will suit the realm,
Where racked distortions may seem right to all.
Whatever tidings we allow may not
Be true. Incarcerated verities
Are kept from view. We are the jailers of
Particulars, the keepers of events,
Who keep them in the Tower hid from England.
Our willful falsehoods shall not be unwarped,
As factious propagations verily
Prevail, annunciated oneness on
This land annealing. Fiction is the fountainhead
Of sovereign force. As omnipresent as
Obscurity or too pervasive for
Dissent by sight the Crown’s pronouncements are.
Our words dissimulate our works. We own
The light immured in these affairs. What we
Suppress remains in prison. Keeping vision to
Ourselves and giving darkness out, we can
The foisted preference of fraud provide.

 

The Queen’s Announcement

The Earl of Essex and Francis Bacon have been conversing.
Enter Sir Robert Cecil and Sir Edward Coke.

Essex: Sirs, may my present greetings pleasure you.

Cecil: A pleasant cause, my lord, your presence carries.

Bacon: My hopeful salutation, sirs, although
Your hopes should meet no hap.

Coke: Where hope
Is meritorious rightful haps pertain.

Bacon: No hapless merits have been manifest
In you, Sir Edward.

Coke: All my haps are fit
To raise my hopes.

Bacon: Eristic jurists, as
We are, would in juristic emulation rise.

Coke: My ripened erudition is more right
For office than your own as neophyte.

Bacon: I see unequal precedents in all
The convoluted chronicles of law.

Coke: And you in my Reports and Institutes
Have learned how common law no tyranny
Allows. Enter guards, Maids of Honor and trumpeters. Fanfare for the Queen. Enter Elizabeth.

The Queen: By counted estimation of concerns
And seasoned inference from sums of thought,
Upon decisive maturation not misled,
I will the next Attorney General
Announce. For scholarly prodigiousness
No legal connoisseur is like to Coke,
A lawyer scrutinizingly discreet.
Of expert opposition, apt for trials
Of contradiction, legal excellence
In suits confirming, breathful wisdom not
Abating, Edward Coke immediate comeliness
In speech maintains. As loud as Cicero,
Tonitruous his knowledge is, expounding what
Was never reached before. He pierces far
What is perceivable by rational
Pursuits, and by experienced aptitude
Sir Edward will expose injustice to
The law. We think ingenious gratitude
In him will never pall the crown. Wilt thou
Maintain this place, Sir Edward, or forbear
Promotion?

Coke: For judicial decency
In England and the undistorted wealth
Of order in this strenuous place my strength
I’d prove.

Three Poems by Kevin Heaton

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Poetry, Writing on January 21, 2015 at 8:45 am

Kevin Heaton

Kevin Heaton lives and writes in South Carolina. His work has appeared in a number of publications including Guernica, The Freeman, Raleigh Review, Beloit Poetry Journal, The Adroit Journal, and The Monarch Review. He is a Best of the Net, Best New Poets, and three-time Pushcart Prize nominee.  Visit his website.

Political Correctness

I found myself left behind in a redwood
cathedral, super glued at the hip to a silenced

pleader clenching an empty gel pen between
two toes; signing to a songless nuthatch

like a near-quit fetus, hoping for hearsay
about supposed things. Alongside a burl altar:

Sadducees, Pharisees, and tax collecting
Publicans were soothsinging psalms,

and casting the bejesus out of daylily shadows.
Seems the pendulum always swings too far

the other way from splintered klaverns.
All I’d really hoped for was to remain—
sincerely me.

Combovers

Am I being candled for a more elevated
pigeon hole? One where all the double yolks
have been sifted?

That bushel of premium persimmons
I canned last October puckered, turned
festy, and burped their lids.

Or, perhaps I belong down here in this din,
among the wig hats drying out around
this old country store potbellied stove.

With the vichyssoise leeks and alimony
dads moving towards less eccentric
complexities; no longer in denial

about penetrating sources of light. Among
counselors readying their toupees
with that spotless, store bought pomade.

The Senate Has No Clothes

From across the Rappahannock, on the fulcrum
of lint-filled fault lines, the last massas rime into
the chalcedony recesses of their waxing dementia.
Perhaps you’ve seen them there: naked, unpolled,

grazing in full ungabled sun, mazing postbellum cane
fields for locoweed and orphaned sugar tit, crazing
hardscrabble, clogging to the cracked-cowbell jingle
of a sharecropper’s pocket change. Or at night,

nosing through deer droppings for musk covered
persimmon pits, rooting through lichen-labeled rows
of weeviled cotton stubble for plowed under overseer
dollars—swapping them to carpetbaggers for peonage

and jiggers of snake oil in those folded Nebuchadnezzar
poker faces like fourth kings in the second dynasty
of Isin—their puckered pie-gaffers papping out old banjo
tunes in the garbled pig latin of piney truffle tubers.

 

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