Allen Porter Mendenhall

Archive for the ‘Arts & Letters’ Category

Salto Alto

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on April 29, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

– Realmente as lembranças são boas, mas você tem de reconhecer que nós chegamos a esse ponto graças às suas implicâncias.

– Implicâncias?! Meu querido… implicâncias são nada, diante dessa sua postura…dessa intransigência… desse machismo todo. Machismo, isso…é esse o termo.

– Agora você fala em machismo, Elvira, mas na época ficava toda dengosa dizendo “como me fortalece essa sua preocupação, benzinho”. Vê lá aquele cara, o dos óculos na boca, eu tenho certeza que ele tá dizendo pra ela que o decote tá muito escandaloso.

– Olha, Cuca, se ele tá falando algo a respeito do decote, é o que vai fazer com ele depois daqui. Não vê aquela cara?

– Cara de quê? De quê?

– Esquece. Poderia pegar outra taça pra mim, por favor?

– Pego, desde que você não me peça com esse jeitão de juíza de paz em audiência, afinal de contas, ainda não estamos separados.

– Cuquinha, anjo, pega uma tacinha pra mim, lindo?

– Você sempre usava “anjo” quando não tava legal ou queria brigar.

– Pega uma taça, pô!

– Então, Cuca, como estão as coisas? A Elvira tá linda hoje, heim?

– Uma diva por fora e uma centuriã por dentro. Só tá dando estocada, Marcão.

– É assim mesmo, rapaz. Você não viu quando eu me separei da Sandrinha? Todo santo dia era uma discussão… e à noite também.

– Só que a Sandrinha não passava na tua cara que você tinha estragado tudo. Pra falar a verdade, eu nem via vocês discutindo tanto.

– É… diferentemente da Ester, ela aceitou o desgaste da relação.

– E a Ester não tá aceitando?

– Ela não acredita em desgaste da relação, meu querido. Ela vê o término do casamento como o final inevitável de uma relação de interesses, mesmo que, no nosso caso, o interesse maior fosse apenas sexo. Toma esse chileno aqui.

– Não tinha o cabernet argentino que você gosta, mas esse chileno aqui é divino.

– Edvaldo Augusto… esse argentino a que você se refere foi quando nós começamos a namorar, e eu nem gostava de vinho na verdade.

– Tá vendo só? Eu me esforço, procuro ser um cara atencioso, e o que ganho sempre? Patada.

– Calma, Cuca. Lembre-se que estamos discutindo nossa relação.

– No aniversário da filha do nosso melhor amigo?

– Do seu melhor amigo. Ele deixou de ser o meu, quando terminou com a Sandrinha.

– Mas que barbaridade, Elvira. Você… uma mulher inteligente, moderna, que normalmente aceita os defeitos e decisões das pessoas, com esse preconceito ridículo.

– Você acha?

– Acho.

– Engraçado. Eu poderia jurar que sendo gêmeas univitelinas e tendo o Marcão começado com a Ester um mês depois que eles acabaram, isso já seria motivo suficiente.

– Olha quem tá chegando.

– Oi, pai.

– Filhinha. Cuca. Tô interrompendo alguma coisa?

– Imagina, seu Berto. A gente tava somente divagando sobre contingências de relação a dois.

– Especialmente quando essa relação a dois diz respeito a duas pessoas muito próximas, que nem estão tão próximas assim.

– Minha gente…faz trinta anos que eu e sua mãe decidimos não desgastar a relação com esse tipo de discussão.

– Mas vocês já estão separados há vinte anos.

– Isso não importa para o contexto. Mas pelo menos nos dez primeiros anos deu certo.

– É o que eu tento sempre dizer pra ela, seu Berto. Não adianta discutir o que pode ser tranqüilamente relevado.

– Acontece, Cuca, que a arte de relevar, tão eficientemente desempenhada por você, é exatamente o que agrava as coisas. Como agora, por exemplo.

– Agora? Qual exemplo? O que eu fiz?

– Você me trazendo aqui, na casa do “ex” da minha irmã, depois d’ele ter feito o que fez, achando tudo normal.

– Mas o que tem de errado numa separação e num novo casamento?

– Realmente não tem nada errado, minha filha.

– Ocorre que ele já traia a Sandrinha antes de separar, papai.

– Realmente tá errado, Cuca.

– E o pior é que esse aí sabia de tudo.

– Isso não é verdade, Elvira, eu apenas achava.

– Ah é? E quem foi que apresentou a Ester ao Marcão?

– Eu, como você sabe.

– Só não sabia que vocês já tinham namorado antes.

– Ela foi minha namorada aos treze anos, Elvira.

– O que é pior, porque esses sentimentos antigos nunca passam e nem são esquecidos.

– Nossa, Elvira, dessa vez você tá ultrapassando todas as possibilidades de imaginação fantasiosa.

– Uma imaginação que hoje tem uma filha aniversariando e não tira os olhos de você.

– Agora você exagerou. Tô me sentindo até ofendido com isso. Eu jamais teria alguma coisa com a mulher do meu melhor amigo.

– Minha filhinha… eu acho que você tá saindo do foco também.

– Se tem algo que eu não perdi foi o foco, papai. O foco nos olhos da Julianinha, verdes como os do Cuca; o foco no nariz, arrebitado feito o do Cuca, e até no jeitinho dela sorrir…exatamente como o do Cuca.

– Essa foi demais… uma filha com a Ester. A Julianinha ser minha filha é a coisa mais maluca que eu poderia ouvir nesses dez anos.

– Eu também.

– Papai…o senhor tem que ficar do meu lado.

– Bem, com licença, acho que meu celular tá vibrando. Filhinha. Cuca.

– E o que tá vibrando agora é a minha cabeça. Olha , Elvira, a gente se fala em casa. Pode ficar com o carro que eu pego um táxi.

– Isso. A consciência já tá pesando.

– Seu Berto, empresta o telefone?

 

Avelino

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on April 15, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

Já fazia parte da rotina dele sentar-se no tronco em frente à casa, olhando aquela terra árida que não tinha cheiro de nada, contemplando uma estrada barrenta, sem outras casas além da dele e sem visões de um tempo bom e de boas lembranças.

A imersão naqueles pensamentos era diária, assim como eram diários os sonhos de uma vida sem aquele sofrimento todo. Não era nada físico. Ele nunca fora castigado pela mãe, que além de saber do empenho dele na organização dos plantios e no trato com os animais, reconhecia os valores de um filho bondoso e preocupado com os seus.

O sonho era o de deixar todo aquele cenário seco e sem vida, com uma sede eterna de tudo o que refrigera a alma e alenta um semblante entristecido. Dona Maria da Luz, a mãe, já tinha notado aquele olhar, e também já tinha imaginado que uma partida dele não era algo remoto, ao contrário, considerando que todos daquela idade já tinham partido dali, ficando apenas os mais velhos e as crianças. Ela sabia que isso era possível, mas rezava pra que não se concretizasse, afinal eram somente eles dois naquela casa, além da irmã menor, que por razões óbvias não daria conta de tantas responsabilidades naquele sítio.

Ele avaliava tudo e sabia bem o que representaria uma partida, deixando as duas com toda aquela carga de coisas, mas muito mais com a impressão de que ele estaria fugindo de algo que não poderia vencer. E de fato ele não conseguiria jamais. Como superar tanta seca, tanta fome, tanto sol, tanta solidão e abandono? Ele não conseguiria jamais. E além do mais, agora estava mais focado do que nunca, principalmente depois da conversa com José Pedro, amigo de infância, que retornara da capital e estava ali por aquelas bandas visitando parentes, e que também lhe fizera ver que a única alternativa era o êxodo, a saída, a fuga, se assim entendesse. Mas não uma retirada desesperada e sem propósito; não um rompimento com suas raízes e história, com sua família e passado. Seria uma saída estratégica, momentânea, apenas o tempo necessário para uma conquista de vida, de posses e de solidez, após o que retornaria e resgataria os que ficaram.

– Mas Zé… como eu poderia deixar minha mãe e minha irmã aqui, assim?

– Avelino, rapaz… ficando aqui é que você vai ajudar menos ainda, homem. Vai ficar nessa vida sofrida, sem esperança e sem futuro. Lá, pelo menos, você vai ter uma garantia, um emprego e uma moradia, até poder se arranjar sozinho.

Era algo em que ele não conseguia parar de pensar. Os últimos anos tinham sido duríssimos, sem perspectiva alguma do que pudesse trazer qualquer mudança, porém ele também sabia que havia algo além da sofreguidão. Havia uma certa sensação nostálgica em ser o arrimo da casa e a pessoa em cujos ombros pesavam todas as dependências. Era uma sensação incoerente, ele sabia. Como sabia também que coerência era um artigo extremamente raro naquele lugar, especialmente naqueles dias. E naquelas horas ele se sentia resoluto.

Partiu, enfim, na lua cheia de dezembro, querendo acreditar que olhando pra ela teria alguém com quem conversar e com quem se ressentir. Saiu enquanto todos dormiam, obedecendo ao que a mãe dissera, ela que não suportaria abraçá-lo na despedida e nem olhá-lo nos olhos pra desejar-lhe sorte. Nesse pedido, ele sabia bem, estavam todos os clamores calados e todos os choros contidos que lhe seriam ditos se ela o visse partir. Embora forte, a tez enrugada da velha sempre estremecia quando o assunto envolvia partidas, com os olhos lacrimejando e o olhar cabisbaixo, sem qualquer palavra, apenas soluços compassados e a respiração perturbada. Não era a primeira vez que ela passava por aquilo. O marido, muitos anos antes, tomara a mesma decisão, e com o mesmo ímpeto buscou uma fuga ensandecida, deixando todos aos cuidados de Dona Maria da Luz e de um futuro incerto, ou certo, já que, conforme ela previu, ele não mais voltou.

Agora, porém, o quadro era outro e a saída do filho soava como algo apocalíptico. Como, afinal, iriam sobreviver? Como suportariam, sem a força, a perseverança e a solicitude do jovem, àqueles tempos de penúria? Mas em momento algum qualquer palavra foi proferida. Nada foi dito. Nenhum lamento saiu dela, além do lamento de uma mãe pela perda do filho. Um filho que não voltaria, envolvido que seria por um mundo grotesco. Um mundo novo e feroz, que de tanto açoitar-lhe com maldade e sofrimento, apagaria de sua memória as lembranças de vida e os laços com o passado, e apagando o passado, apagaria o futuro delas.

E foi nesse embaço de coisas que ela levantou de manhã, sentando no tronco em que o filho sempre sentava e olhou aquele risco de nuvem que mais lembrava um galho de aveloz. Contemplando uma estrada barrenta e olhando aquela terra árida que não tinha cheiro de nada, ela sentiu que o sol estava mais quente do que de costume e o som do silêncio era ainda mais triste que outrora.

 

 

 

Um Céu Imenso

In Arts & Letters, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature on April 8, 2015 at 8:45 am

Hugo Santos

Hugo Santos é professor de Literatura no Brasil e possui os cursos de Graduação e Mestrado em Literatura Brasileira, ambos conseguidos pela Universidade Federal de Pernambuco, no estado de Pernambuco, cuja capital é Recife – sua cidade natal (e de acordo com ele mesmo, uma das mais belas cidades do país). Atualmente, ele está frequentando o Programa de Doutorado em Educação de Adultos, na Universidade de Auburn, onde também é professor de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira. Além disso, ele está representando o Governo de Pernambuco na iniciativa de se estabelecer uma parceria entre a UA e a Universidade do Estado de Pernambuco, através do estabelecimento, troca e ampliação de pesquisas que permitirão a alunos e professores das duas instituições explorarem o que cada uma tem para oferecer. É autor de “Um Céu Imenso.”

Hugo Santos is a Professor of Literature in Brazil and received both his undergraduate and master’s degree in Brazilian Literature from the Federal University of Pernambuco, in the state of Pernambuco, located in the Northeast of Brazil, whose capital is Recife—his hometown (according to himself, one of the most beautiful cities in the country). Currently, he is enrolled in the Ph.D. Program in Adult Education at Auburn University and teaches classes in Portuguese and Brazilian Culture. He is linked to the Auburn University Office of the International Programs as a representative of the Government of Pernambuco and is establishing a partnership between Auburn University and the Pernambuco State University, where he worked in Brazil. The research exchange and extension program enables the students and teachers of both institutions to explore what each university has to offer. He is the author of Um Céu Imenso (“An Immense Sky”).

A cadeira se encontrava exatamente no mesmo local. As teias que a recobriam davam-lhe um contorno sutil, de modo que o quadro de abandono do quarto era encoberto por aquele manto prateado, luzindo ao abrir da janela e mantendo intocáveis as lembranças há muito guardadas de uma época de alegria, dor e tristeza.

Remanescendo de uma turva lembrança, que embora agora estranha, era ainda uma visão que me enternecia muito, vi tomarem forma as estantes de livros, a cortina cinza que combinava com aquela extensão de céu sempre chuvoso, e que me trazia, junto com as gotas, o toque mágico do horizonte, quando estendia o rosto pela janela e permitia à chuva desempenhar o papel de confidente e mensageira de uma embalada esperança. Senti a mesma brisa daquelas noites solitárias, daqueles momentos de intangível leveza, em que me sentia num vôo silencioso, rasgando ares sem fim e tendo a minha frente apenas o infinito, irretocável e belo, chamando-me a um mundo desconhecido do meu e a uma vida desconhecida da minha.

Senti o mesmo tremor no assoalho do quarto, de quando ouvia os passos na escada e num rasgo impetuoso de agonia gelava-me o sangue, sufocava-me o peito e eriçava-me o coração, num batimento louco arritmado, vendo surgir, gigantesco e enfurecido, a imagem de meu pai.

– Moleque! Eu disse que não queria você com aquela vadia.

– Ela não é vadia. Só está querendo me ajudar.

– Ajudar a tirar você dessa família, de junto dos seus irmãos.

Meu pai jamais imaginaria o que era estar ao lado da Dona Mariana. Impossível também para um menino de doze anos pensar nela como um ser humano normal. Impossível não ser hipnotizado por uma profunda sensação de êxtase quando a via, em qualquer que fosse o momento, especialmente no primeiro cumprimento do dia.

– Tudo bem, Vitinho? Hoje você parece muito mais encantador e sorridente do que da última vez. Andou ganhando algum presente?

– Não, senhora. Só tô feliz porque tô mesmo.

Hoje eu vejo, sentindo ainda o veludo daquela voz, que aquele jeito cândido, aquela beleza sublime de quem transpirava ternura, era única e simplesmente o que ela era. O seu tom e o seu toque, o rosto delineado lembrando a face do bem, e um sorriso angelical que irradiava pura compaixão, deixaram-me instintivamente apaixonado no primeiro segundo que a vi.

Eu a havia conhecido no mesmo dia em que minha mãe morrera. Ao ver-me chorando no corredor do hospital, sem jamais termos-nos falado antes, ela me deu um abraço afetuoso e alisando minha cabeça e limpando minhas lágrimas, teceu-me os mais belos comentários a respeito de minha mãe que ninguém jamais dissera. Citou frases que ela havia dito, pessoas que havia ajudado e fez-me ver, da maneira mais cristalina possível, que o fazer o bem era o valor mais inalienável que poderíamos ter e repassar.

Minha cabeça girava feito um carrossel. Muito mais pela apaixonante presença daquela diva, do que pelo enredo de dor pelo qual passava naquele dia. Na ocasião não entendi muito bem a iniciativa de Dona Mariana e perguntava-me, a todo momento, o que a movia a tamanho gesto.

Muito mais complicado era tentar entender a reação negativa de meu pai àquela amizade. A fúria que o tomava à simples citação do nome dela deixava-o de tal modo possesso que seus olhos esbugalhavam, a ponto das veias do globo ocular ficarem à vista, a veia da garganta inchar e, a cada berro, chuvas de saliva respingarem em quem o cercasse. Era completamente incompreensível tanta ira por alguém tão infinitamente amável como Dona Mariana.

De toda sorte, e por força de um impulso sempre incontido, jamais deixei de ir aos encontros com aquela minha musa. Apesar do medo das surras prometidas e do calafrio no momento do retorno pra casa, a necessidade de falar-lhe, de ouvir-lhe e de olhar-lhe se sobrepunha a quaisquer sentimentos humanamente conhecidos. O bombeamento do meu sangue aguçava toda a eletrização do meu corpo, e um misto de letargia e ligeireza, de estupidez e genialidade tomavam conta de minhas ações, gestos e sorrisos.

Como era de se esperar, um dia fiz-lhe referência ao ódio nutrido por meu pai, incluindo os detalhes mais constrangedores, à mínima referência a seu nome e, para minha surpresa, absolutamente nada lhe soou estranho. A impressão, inclusive, foi de uma fina dor na confirmação daquelas palavras, no marejamento daqueles olhos e naquele único sorriso, que não foi de um anjo, mas de uma alma ferida por uma estocada, direto no coração, da adaga da amargura.

– E você tem idéia do por quê dessa raiva?

– Não tenho, não. Mas é algo importante, não é?

– Eu já não falo disso há muitos anos. Nesse tempo todo, sempre imaginei que retomar a vida fosse fácil, depois de um duro golpe dado pelo destino. O fato, meu querido, é que os golpes só aumentam de intervalo, mas estão sempre presentes em nossos desígnios, turvando nossa mente e obrigando-nos a trincar nossos risos e enterrar nossos sonhos de felicidade.

Era sem dúvida uma hora difícil para ela, e meio que imaginando algo que pudesse afastá-la de mim a partir daquele momento, senti o meu sangue gelar e a chegada de um medo inapelável incorporou-se às minhas sensações, de modo que fechei os olhos e apenas escutei-a, calmamente.

– Meu amado Vitinho… eu conheci o seu pai muito antes d’ele se casar com a sua mãe. Nós nos amamos muito, mas por uma ironia do destino eu engravidei e tive de sair dessa cidade porque meus pais ficaram inconformados com aquilo. Seu pai nunca me perdoou, embora até hoje não saiba que quando o deixei carregava um filho dele no ventre.

– E onde está ele, agora?

– Infelizmente ele está morto. Ainda bebê, após as complicações do parto, ele não resistiu e os recursos médicos da época não ajudaram. Meu filho morreu aos dois dias de nascido. Se ele estivesse vivo hoje, teria exatamente o dobro da sua idade.

Aquela revelação esclareceu cada ponto nebuloso surgido em minhas indagações internas, e embora ela tivesse divagado por outros assuntos mais amenos, minha mente apenas resgatava aquelas palavras:”(…) os golpes só aumentam de intervalo, mas estão sempre presentes em nossos desígnios(…)”, e por mais que aqueles olhos tristes me chamassem a atenção, eu pensava tão somente na dor daquela mulher, na sua tão contida angústia, embora ninguém pudesse duvidar da alegria que ela sempre nos demonstrava.

Como eu amei aquela mulher! E amei-a muito mais após aquela tarde. Após sentir que apesar de tanta dor, desesperança e eventualmente castigo, seu semblante era do mais sereno amor e enternecimento.

Para minha dor, porém, perdi, naquele instante, minha amada. Ao sair novamente da cidade, dessa vez para não mais voltar, e a exemplo do que ocorrera com meu pai, ela levou consigo, sem perceber, uma parte de mim, a parte que mais me era imprescindível – a alegria de minh’alma.

Tocando agora a janela, onde ao longo dos anos me debrucei, viajo junto daquele meu eu e, planando por um céu imenso, ensaio um contato com Dona Mariana, ícone de meus sonhos e senhora dos meus pensamentos, com quem vivi, cresci e amei, numa vida sem desígnios, sem golpes e sem dores. Numa vida onde ainda era-nos permitido sonhar.

Paul H. Fry on “The Postmodern Psyche”

In Arts & Letters, Books, History, Humanities, Literary Theory & Criticism, Literature, Pedagogy, Philosophy, Postmodernism, Scholarship, Teaching, The Academy, Western Civilization, Western Philosophy on April 1, 2015 at 8:45 am

Below is the next installment in the lecture series on literary theory and criticism by Paul H. Fry.  The previous lectures are here, here, here, here, here, here, here, here, here, here, here, here, here, and here.

Paul H. Fry on “Influence”

In Academia, American Literature, Arts & Letters, Books, British Literature, Conservatism, Creativity, Fiction, History, Humanities, Literary Theory & Criticism, Literature, Pedagogy, Philosophy, Scholarship, Teaching, The Academy on March 25, 2015 at 8:45 am

Below is the next installment in the lecture series on literary theory and criticism by Paul H. Fry.  The previous lectures are here, here, here, here, here, here, here, here, here, here, here, here, and here.

Of Bees and Boys

In Arts & Letters, Essays, Humanities on March 18, 2015 at 8:45 am

Allen 2

The following essay appeared here in Front Porch Republic.

My brother Brett and I were polite but rambunctious children who made a game of killing bees and dumping their carcasses into buckets of rainwater.  Having heard that bees, like bulls, stirred at the sight of red, we brandished red plastic shovels, sported red t-shirts, and scribbled our faces in red marker.  They were small, these shovels, not longer than arm’s length.  And light, too.  So light, in fact, that we wielded them with ease: as John Henry wielded a hammer or Paul Bunyan an axe.

The bees had a nest somewhere within the rotting wood of our swing set.  Monkey bars made of metal triangles, much like hand percussion instruments, dangled from the wooden frame above; when struck or rattled with a stick, these replied in sharp, loud tones, infuriating the bees, a feisty frontline of which launched from unseen dugouts.

These deployments, though annoying, were easily outmaneuvered: Brett and I swatted them to the ground with our shovelheads.  Mortally wounded, they twitched and convulsed, moving frantically but going nowhere; all except one bee, valiant as he was pathetic, wriggling toward his nearest companion, his maimed posterior dragging in the dirt.  Not much for voyeurism, I relieved him of his misery.  Then Brett and I whacked the littered lot into tiny bee pancakes.

Meanwhile, the defeated community, convening somewhere in the wood, commissioned its combat medics: fat, steady-flying drones that hovered airborne over the dead and then descended, slow and sinking, like flying saucers.  The medics would, when we let them, carry off their dead to an undisclosed location.  I couldn’t watch this disturbingly human ritual, so instead I annihilated the medics, too.  They were easy targets, defenseless.  And they kept coming in battalions of ten or eleven.  As soon as I’d destroy one battalion, another materialized to attend to the new dead.  Unlike the frontliners, the medics didn’t try to sting.  They just came to collect.  But I wouldn’t let them.  Neither would Brett.  Eventually, they quit coming.  That, or we killed them all.

Bees are funny creatures.  Unlike birds, they have two sets of wings.  Most female bees, unlike most female humans Iknow, grow their leg hairs long and their bellies plump—this in order to carry nectar or pollen.  Bee pollination accounts for one-third of the human food supply.  Without bees, then, we might not have our Big Macs or Whoppers—nor, for that matter, honey or flowers.

When I lived in Japan, I had a friend who fancied himself an entomologist.  When he and I tired of talking politics, books, or women, we spoke of insects: I told him weird insect stories, and he explained away the weirdness.  He informed me, for instance, that the bees living in my swing set were probably solitary bees: a gregarious species that stung only in self-defense.  This, you might imagine, was sobering news for an insect murderer.

I asked about the medics that carried away the dead.  Honey bees, he said, discarded their dead for hygienic reasons—to prevent the spread of infection—and they coated their dead in antibacterial waxes.  As for the behavior of my bees, however, he wasn’t sure: maybe they, like honey bees, discarded remains where germs wouldn’t spread.  Or maybe—and he said this facetiously—they conducted funerals.

It wasn’t long before Jared, the boy next door, got in on our bee brutality.  Pregnant with mischief—more so than me or Brett—he decided one day to show us something; shepherding us through the woods, lifting a disarming smile as if to say, “Trust me,” he paused at last, indicated a hole in the ground, and declared, “Thisis it!”

A steady stream of yellow jackets purred in and out of the hole.  He waved his hand to signify the totality of our surroundings and said, “Ours.  All ours.  None for the bees.”

Or something to that effect.

Brett and I nodded in agreement, awaiting instruction.  If we were confused by Jared’s deranged sense of prerogative, we didn’t show it.  Brett found a heavy rock, which I helped him to carry.  We dropped it at Jared’s feet.

Jared summoned forth a mouthful of mucus and hacked it into the hole.  Unfazed, the yellow jackets buzzed in acknowledgment but otherwise ignored the assault.  “These guys are in for hell,” Jared said of the bees, offended at the ineffectuality of his first strike.  He anchored his feet and bent over the rock, which he heaved to his chest and, leaning backwards, rested on his belly; then he staggered a few steps, stopped, and—his face registering another thought—dropped the rock to the ground.

“Spit on it!” he ordered.

Brett and I, obedient friends that we were, doctored the rock in spit.

Then Jared undertook to finish the job he’d begun:  he bent down, lifted the rock, waddled to the hole, straddled the hole, and dropped the rock.  The ground thumped.  A small swirl of dust spiraled into miniature tornadoes that eventually outgrew themselves and became one with the general order of things.

“That’ll do it,” Jared said, clapping his hands together to dry the spit.  The colony, its passage blocked, was trapped both inside and out.  Those un-entombed bees, rather than attack, simply disappeared.

We rejoiced in our victory.  Jared pantomimed conquest, pretending to hold an immense, invisible world Atlas-like over his shoulders.  Brett danced.  I was so busy watching Jared and Brett that I can’t remember what I did.

We didn’t know that yellow jackets engineered nests, tunneled hidden passages and backup exits; nor did we appreciate what the tiny zealots were capable of.

It started with trifling harassment: a slight, circling buzz—reconnaissance probably.  Then I felt the first sting; looking down, I saw a yellow jacket, curled like a question-mark, bearing into my leg.  I spanked it dead.  It looked angry—something in the way it moved.

I heard Brett scream.  Then Jared.  Then saw the ubiquitous cloud of yellow jackets rising in the air, moving as one unit, enveloping us with fatalistic purpose.  My ears filled with the steady drone of thrumming wings.

Then, as happens in moments like this, moments of panic, moments when one feels he’s lost control, feels some other faculty taking over, I submitted to a greater power, which stiffened the muscles of my neck and arms, sent contractions through my calves and thighs, like spasms moving me forward, making me to run, the house, my house, once far away, a small square, growing larger and larger until at last it became a complete, reachable form, the door, my safety, announcing its presence, telling me to hurry, hurry.  Ahead was a fence.  I’d have to jump it.  I measured my strides for the leap, which, miraculously, I achieved with the slight assistance of my palms upon the fence-top.  I found the doorknob, dove into the kitchen, flung off my clothes.  The drone wouldn’t go away.

But where was Brett?  Not here.  Where was he?  Just then came a voice—“Allen!  What in God’s name?!”—and then mom was beside me, horrified, her eyes growing three-times their normal size; and then she was gone again; somehow I was back at the door, looking outside, at the yard, at mom battling the fleet of yellow jackets, at Brett stuck on the fence top, screaming, his face flushed red—red!—his arms leaking blood.  Was that blood?  Or a sore?  I couldn’t tell.

Mom deposited Brett in the kitchen, stripped him naked, called the doctor.  Tweezers.  I remember tweezers.  Yellow jackets were in his ears and mouth.  They were everywhere.  Outside, they continued ramming their bodies into the window.  I looked out.  One hovered there.  It looked at me.  I looked at it.  Insect and Man.  Sizing each other up.

In light of these memories, I can’t help but sense that, no, on account of their characteristics and functions, bees are not the affirmative, happy creatures of some Wordsworthian lyric; that they are too much like us for armistice or reconciliation; that, in fact, we will never see the last of them, as they will never see the last of us.  They will live on, as will we.

Let the boys at them, and they at the boys.  That’s how it ought to be.  So alike are the two that it’s hard to tell who has the advantage of intelligence.  I learned, those many years ago, before the profundity of it all struck me,that wounds can teach the tragic lessons of ignored similarities.  There’s something to be said for that.

If nothing else, I have come to admire bees for their tenacity and courage in the face of insurmountable power.  Theirs is a world of flux,disorder, and death.  Their body is a weapon, one that, once used, terminates everything.

Boys war with bees.  Bees war with boys.  Just another kind of outdoor game, one on a side, except no one can say “Elves.”  Not in this game.

In this game, there is only one ending.  Even in victory, the bees lose.  It takes a man to understand; it might just take bees, or something like them, to make a man.

“Excerpt from the last scene of the Mortal Lopez, part two,” by F L Light

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Literature, Shakespeare on March 11, 2015 at 8:45 am

F L Light

A Shakespearean proficiency in meter and rhetoric may to F L Light be ascribed. Nearly forty of his dramas are now available on Amazon, and twenty have been produced for Audible. His Gouldium is a series of twenty four dramas on the life and times of Jay Gould which he followed with six plays on Henry Clay Frick. The whole first book of his translation of The Iliad was published serially in Sonnetto Poesia. He has also appeared in Classical Outlook and The Raintown Review. Most of his thirty five books of couplets are on economics, such as Shakespeare Versus Keynes and Upwards to Emptiness the State Expands.

Excerpt from the last scene of the Mortal Lopez, part two.

Hampton Court. The Queen, Essex and Francis Bacon.

Essex: On matrimonial fortune he’s composed
An essay, which your Majesty may wish
To hear.

The Queen:     How married happenings could mar
My house in horror I have known. O what
A procreant consequence my sire pursued!
Now your unmarried rumination I
Will hear, comparing what I’ve learned so long.

Bacon: In costly hostage, captive usage, are
One’s wife and children all by fortune held,
Being clogs to our contentions for success.
The vigor of attainment is avowed
Without them, and the manliest hunt for fame
Is found in childless hunters for the chance
Of quests. The brightest consummations, sought
With brains, and labored greatnesses, fulfilled
Protractedly with grief, have been pursued
By the unmarried. But no dim incitement,
Concerning readiness for all the cares
Of growth, constrains a house of parents, who
Of future requisites would not be short.
Yet there are some, though for expedience
All unespoused, who hold all future causes as
But futile thoughts. And in unwedded thrift
Some hold that wife and children are at length
Too chargeable. And some immodest opulence
In household ostentation manifest,
Who’d seem most rich without the charge of children.
But motive freedom is the cause for most
Unmarried, who’d for expeditiousness
Be free, remaining self-productively
Resolved, apt to accomplish thoughts of wealth
Or wit. Such fellows think their ruffs and girdles
No less than yokes and subjugative ropes.
No better friends than those unmarried will
You find. As masters, servants or advisers
I see them best, but not as subjects, being
From burdens of the crown inclined to shift
In paced escapes, incumbencies eschewing.
But single days befit a churchman, who,
To no parental charity obliged,
May play the father to his faithful pews.
Yet soldiers matrimonial loyalty
Should have, whose generals, addressing them,
Exhorting furtherance in courage, will
Adduce their wives and children as the troops
Come forth. And Turkish soldiers to extremes
Of baseness run who marriage cruelly scorn.
But to compel humanity what else
But families should be first? And single men,
Though with the means for charity unused,
Are oft unsparing in their spurns of love
Because no wife or child has ever moved
Their mercy. I’ve known women, chastely single,
Who prideful, wrathful, and pretentious were,
As if their chastity permitted them
To chastise all. And wives are likelier apt
For loyalty who know their spouses trust them.
But jealous men incite disloyal wrath.
Wives are concubines in youth, companions
For intact maturity and nurses when
Debilitated weariness declines.
No dubious protest thus a man might bring
To marry at whatever age. But one
Of philosophic name believed there was
No timeliness in marriage for the young
Or old. And all observers have averred
That kindly wives have often churlish men
Of faultiest cruelty, waiting on their spite
Either to savor patience or to raise
In long probation the true worth of kindness.
But of all husbands none was kinder than
Odysseus who preferred his homely crone
To the insatiate immortality
Provided on the island of Calypso.

The Queen: Pangs of unwedded disappointment it
Bestirs in us who’d never grief admit.

Excerpts from “The Trial of Lopez,” by F L Light

In Arts & Letters, Creative Writing, Humanities, Law, Literature, Poetry, Shakespeare, Writing on March 4, 2015 at 8:45 am

F L Light

A Shakespearean proficiency in meter and rhetoric may to F L Light be ascribed. Nearly forty of his dramas are now available on Amazon, and twenty have been produced for Audible. His Gouldium is a series of twenty four dramas on the life and times of Jay Gould which he followed with six plays on Henry Clay Frick. The whole first book of his translation of The Iliad was published serially in Sonnetto Poesia. He has also appeared in Classical Outlook and The Raintown Review. Most of his thirty five books of couplets are on economics, such as Shakespeare Versus Keynes and Upwards to Emptiness the State Expands.

Excerpt from the trial of Lopez in the Guildhall, London. Behind Lopez and Sir Edward Coke sits a commission of fifteen jurors, including Sir Robert Cecil.

Lopez:      A tortured oneness you demand
In all your towns. This nation’s consonance
Upon tormented uniformity
Depends. Invariable ignorance,
As constant as oblivion, is coerced
Forever, as incarcerated shocks
For all dissenters you account deserved.
Whoever is untortured will be tamed
Erelong. Minacious penalties, immense
In deprivation, mean no differers
Are free. What sanctimonious calumnies
You cast at them, for blank monotony
Suppressing faces.

Coke:                    Lopez, what pertains
To this? Vociferating mutiny
Condemns you, so against the crown you seem.

Lopez: I in the Tower was a tamed attester.
The threatful rack my truthfulness repressed.
I saw my menacers decisive. What
Lord Burghley wished he meant to wrench, as did
Sir Robert Cecil and the Earl of Essex
And William Wade. To them I lied of guilt.
Not striving with their threat, no torture I’d
Endure, too haplessly exposed to speak
My mind.

Cecil:      Thou Hebrew, vilest impotence
Befall you! Liar, be hapless on the block!

Lopez: Cecil, you deceitful statuette,
What can you state but a resentful threat?

Cecil: Asseveration soulful I believe
That says thou liest, in this assemblage blurting.

Lopez: Your crooking of my cause befits a crossed
Deformity whose manliness is lost.

Cecil: Corrupted pest! As deathful as your care
A traitor is with all the tricks you bear!

Lopez: You queenish midget, whom gigantic mocks
Should judge, be found a proditory fox!

Coke: Leave insultation, losel! Who are you
To counter Robert Cecil with contempt?
Now you commissioners, your votes in sums
Of guilt or innocence discover here.
Either of treason to her Majesty
Or for acquittal in this case hold forth.

 

Excerpts from “The Mortal Lopez,” by F L Light

In Arts & Letters, British Literature, Creative Writing, Fiction, Humanities, Literature, Poetry, Shakespeare on February 25, 2015 at 8:45 am

F L Light

A Shakespearean proficiency in meter and rhetoric may to F L Light be ascribed. Nearly forty of his dramas are now available on Amazon, and twenty have been produced for Audible. His Gouldium is a series of twenty four dramas on the life and times of Jay Gould which he followed with six plays on Henry Clay Frick. The whole first book of his translation of The Iliad was published serially in Sonnetto Poesia. He has also appeared in Classical Outlook  and The Raintown Review. Most of his thirty five books of couplets are on economics, such as Shakespeare Versus Keynes and Upwards to Emptiness the State Expands.

Speech of the Inquisitor

Scene: The Tower of London. William Wade the Inquisitor comes forth. Ferreira lies on a pallet in background.

Wade: Jailers are omnipotent in England.
Imprisoned alteration of the truth
We proffer. Catholic prisoners to warped
Incarceration of their words submit,
A tortured metamorphosis enduring.
In twisted transmutations they must truth
Convey or harsher twists will set them right.
What may be realized here will suit the realm,
Where racked distortions may seem right to all.
Whatever tidings we allow may not
Be true. Incarcerated verities
Are kept from view. We are the jailers of
Particulars, the keepers of events,
Who keep them in the Tower hid from England.
Our willful falsehoods shall not be unwarped,
As factious propagations verily
Prevail, annunciated oneness on
This land annealing. Fiction is the fountainhead
Of sovereign force. As omnipresent as
Obscurity or too pervasive for
Dissent by sight the Crown’s pronouncements are.
Our words dissimulate our works. We own
The light immured in these affairs. What we
Suppress remains in prison. Keeping vision to
Ourselves and giving darkness out, we can
The foisted preference of fraud provide.

 

The Queen’s Announcement

The Earl of Essex and Francis Bacon have been conversing.
Enter Sir Robert Cecil and Sir Edward Coke.

Essex: Sirs, may my present greetings pleasure you.

Cecil: A pleasant cause, my lord, your presence carries.

Bacon: My hopeful salutation, sirs, although
Your hopes should meet no hap.

Coke: Where hope
Is meritorious rightful haps pertain.

Bacon: No hapless merits have been manifest
In you, Sir Edward.

Coke: All my haps are fit
To raise my hopes.

Bacon: Eristic jurists, as
We are, would in juristic emulation rise.

Coke: My ripened erudition is more right
For office than your own as neophyte.

Bacon: I see unequal precedents in all
The convoluted chronicles of law.

Coke: And you in my Reports and Institutes
Have learned how common law no tyranny
Allows. Enter guards, Maids of Honor and trumpeters. Fanfare for the Queen. Enter Elizabeth.

The Queen: By counted estimation of concerns
And seasoned inference from sums of thought,
Upon decisive maturation not misled,
I will the next Attorney General
Announce. For scholarly prodigiousness
No legal connoisseur is like to Coke,
A lawyer scrutinizingly discreet.
Of expert opposition, apt for trials
Of contradiction, legal excellence
In suits confirming, breathful wisdom not
Abating, Edward Coke immediate comeliness
In speech maintains. As loud as Cicero,
Tonitruous his knowledge is, expounding what
Was never reached before. He pierces far
What is perceivable by rational
Pursuits, and by experienced aptitude
Sir Edward will expose injustice to
The law. We think ingenious gratitude
In him will never pall the crown. Wilt thou
Maintain this place, Sir Edward, or forbear
Promotion?

Coke: For judicial decency
In England and the undistorted wealth
Of order in this strenuous place my strength
I’d prove.

Es buena la Decimocuarta Enmienda?

In America, American History, Arts & Letters, Austrian Economics, Historicism, History, Humanities, Jurisprudence, Law, Liberalism, Libertarianism, Nineteenth-Century America, Philosophy, The Supreme Court on February 18, 2015 at 8:45 am

Allen 2

El artículo original se encuentra aquí. Traducido del inglés por Mariano Bas Uribe.

Pocas cosas dividen a los libertarios como la Decimocuarta Enmienda de la Constitución de Estados Unidos. Gene Healy ha observado que “Liberales clásicos de buena fe se han encontrado en ambos lados de la discusión”.

Por un lado están los que alaban la enmienda por evitar el poder de los estados para prejuzgar, dirigir, regular o usar fuerza de cualquier tipo para imponer leyes discriminatorias sobre sus ciudadanos. Por el otro están los que, aunque reconozcan la naturaleza problemática de las malas conductas y los actos inmorales del estado, no están dispuestos a consentir la transferencia de poder de los estados al gobierno federal, y en particular al poder judicial federal.

La división se reduce a las visiones del federalismo, es decir, al equilibrio o separación de los gobiernos estatales y nacional.

Las secciones primera y quinta de la Decimocuarta Enmienda son las más polémicas. La Sección Uno incluya la Cláusula de Ciudadanía, la Cláusula de Privilegios o Inmunidades, la Cláusula de Proceso Debido y la Cláusula de Igual Protección y la Sección Cinco otorga al Congreso la autoridad para aplicar legislativamente la enmienda. Estas disposiciones han dado mayores poderes al gobierno nacional, permitiendo a los tribunales federales a hacer que los estados cumplan las leyes federales con respecto a ciertos derechos (o supuestos derechos) individuales.

El Tribunal Supremo de Estados Unidos, en Barron v. Baltimore (1833), sostuvo que la Declaración de Derechos (las primeras diez enmiendas a la Constitución de EEUU) obligaban solo al gobierno federal y no a los gobiernos estatales. Mediante la Decimocuarta Enmienda, que fue ratificada oficialmente en 1868, el Tribunal Supremo de Estados Unidos y los tribunales federales inferiores han “incorporado” gradualmente la mayoría de las disposiciones de la Declaración de Derechos para aplicarlas contra los estados. Así que el gobierno federal se ha empoderado para hacer que los gobiernos estatales cumplan disposiciones que originalmente solo pretendían restringir los abusos federales.

Si el gobierno federal fuera el único o el mejor mecanismo para reducir el tipo de discriminación y violaciones de derechos prohibidos por la Decimocuarta Enmienda, esta sería bienvenida y aceptada. Pero no es el único correctivo concebible y, aparte, ¿no es contraintuitivo para los libertarios aplaudir y defender un aumento tanto en el ámbito como en el grado del poder federal, incluso si ese poder, en algunas ocasiones, haya producidos resultados admirables?

En contextos no relacionados con la Decimocuarta Enmienda, casi nunca resulta polémico para los libertarios promover remedios no gubernamentales, locales o descentralizados, para leyes y prácticas injustas y discriminatorias. A menudo se alega que la industria y el comercio y la simple economía son mejores mecanismos para reducir el comportamiento discriminatorio, ya se base en raza, clase, sexo, género o lo que sea, que la fuerza del gobierno. Aun así, frecuentemente esos libertarios que hacen sonar las alarmas acerca de las aproximaciones gubernamental, federal y centralizada de la Decimocuarta Enmienda a las leyes y prácticas discriminatorias son tratados de forma poco sincera, en lugar de con argumentos, como defensores de aquellas leyes y prácticas, en lugar de como oponentes por principio de las reparaciones federales centralizadas para daños sociales.

Cualquier debate sobre la Decimocuarta Enmienda debe ocuparse de la validez de esta aprobación. Durante la Reconstrucción, la ratificación de la Decimocuarta Enmienda se convirtió en una condición previa para la readmisión en la Unión de los antiguos estados confederados. Healy ha llamado a esto “ratificación a punta de bayoneta”, porque, dice, “para acabar con el gobierno militar, se obligó a los estados sureños a ratificar la Decimocuarta Enmienda”. La condición natural de esta reunificación contradice la afirmación de que la Decimocuarta Enmienda fue ratificada por un pacto mutuo entre los estados.

Los jueces federales consideran irrelevante el propósito de la enmienda

En 1873, el juez Samuel F. Miller, junto con otros cuatro jueces, sostuvo que la Decimocuarta Enmienda protegía los privilegios e inmunidades de la ciudadanía nacional, no la estatal. El caso afectaba a regulaciones estatales de mataderos para ocuparse de las emergencias sanitarias que derivaban de sangre animal que se filtraba en el suministro de agua. El juez Miller opinaba que la Decimocuarta Enmienda estaba pensada para ocuparse de la discriminación racial contra los antiguos esclavos en lugar de para la regulación de los carniceros:

Al acabar la guerra [de Secesión], los que habían conseguido restablecer la autoridad del gobierno federal no se contentaron con permitir que esta gran ley de emancipación se basara en los resultados reales de la contienda o la proclamación del ejecutivo [la Declaración de Emancipación], ya que ambos podían ser cuestionados en tiempos posteriores, y determinaron poner estos resultado principal y más valioso en la Constitución de la unión restaurada como uno de sus artículos fundamentales.

Lo que dice el juez Miller es que el significado y propósito de la Decimocuarta Enmienda (proteger y preservar los derechos de los esclavos liberados) se desacredita cuando se usa para justificar la intervención federal en los asuntos económicos cotidianos de un sector estatal concreto. La regulación estatal de los mataderos de animales no es una opresión del mismo tipo o grado que la esclavitud de gente basada en su raza. Argumentar otra cosa es minimizar la gravedad de la ideología racista.

El juez Miller reconocía que la regulación estatal en cuestión era “denunciada no solo por crear un monopolio y conferir privilegios odiosos y exclusivos a un pequeño número de personas a costa de una buena parte de la comunidad de Nueva Orleáns”, la ciudad afectada por los mataderos en cuestión, sino asimismo como una privación del derechos de los carniceros a ejercitar su profesión. Sin embargo, el juez Miller no creía que el gobierno federal tuviera derecho bajo la Constitución a interferir con una autoridad que siempre se había concedido a gobiernos estatales y locales.

Habiendo establecido al alcance limitado de la cláusula de privilegios o inmunidades en los Casos de los mataderos, el Tribunal Supremo acudió posteriormente a la Cláusula de Igual Protección y la Cláusula del Proceso Debido para echar abajo leyes bajo la Decimocuarta Enmienda. Pero el Tribunal Supremo no se ha detenido ante las leyes estatales: ha usado la Cláusula de Igual Protección y la Cláusula del Proceso Debido como pretexto para regular a ciudadanos y empresas privadas. La Decimocuarta Enmienda, que pretendía reducir la discriminación, se ha usado, paradójicamente, para defender programas de acción afirmativa que discriminan a ciertas clases de personas.

Ceder el poder a los jueces federales no les predispone a la libertad. Como la Sección Cinco de la Decimocuarta Enmienda permite al Congreso aprobar enmiendas o leyes que traten de infracciones estatales a la libertad individual, no es necesario ni constitucionalmente sensato que el poder judicial federal asuma ese papel. Los miembros del Congreso, al contrario que los jueces federales que disfrutan del cargo vitaliciamente, son responsables ante los votantes en sus estados y por tanto es más probable que sufran por su infidelidad a la Constitución.

A nivel conceptual, además, parece extraño que los libertarios defiendan internamente lo que condenan en relaciones exteriores, a saber, la doctrina paternalista de que un gobierno central más poderoso tendría que usar su músculo para obligar a cumplir a unidades políticas más pequeñas.

El legado de la enmienda

¿Ha generado resultados constructivos la Decimocuarta Enmienda? En muchas áreas, sí. ¿Son deplorables algunas de las ideologías contra las que se ha dirigido? En muchos casos, sí. ¿Eran malas las normas contra el mestizaje, las normas de segregación escolar y las normas prohibiendo a los afro-americanos actuar como jurados? Sí, por supuesto. Sin embargo no se deduce que solo porque algunos casos bajo la Decimocuarta Enmienda hayan invalidado estas malas leyes, esta sea necesaria o incondicionalmente buena, especialmente a la vista de la pendiente resbaladiza de precedentes que con el tiempo distancian a las normas de su aplicación pretendida. “Si los tribunales empiezan a usar la Decimocuarta Enmienda para aplicar derechos naturales libertarios”, advierte Jacob Huebert en Libertarianism Today, “no sería más que un pequeño paso para que empezaran a usarla para aplicar derechos positivos no libertarios”.

Intelectuales de la izquierda como Erwin Chemerinsky, Charles Black, Peter Edelman y Frank Michelman han defendido la protección y aplicación de “derechos de subsistencia” bajo la Decimocuarta Enmienda. Estos incluirían los derechos a comida, atención sanitaria y salario mínimo proporcionados por el gobierno. Las leyes estatales que evitaran estos derechos (que no proporcionaran estas prestaciones sociales) se considerarían inconstitucionales; el ejecutivo federal aseguraría así que todo ciudadano de los estados transgresores reciba atención sanitaria, alimentos y una renta básica, todo subvencionado por los contribuyentes.

Estoy dispuesto a admitir no solo que en la práctica yo litigaría bajo las disposiciones de la Decimocuarta Enmienda para representar competente y éticamente a mi cliente (imaginar un sistema en el que el poder federal no esté tan atrincherado es inútil para litigantes en un sistema real en que el poder federal está profundamente arraigado), pero también que, en un mundo más ideal, podría haber otras formas menos deletéreas de luchar contra discriminación y violaciones de derechos que la Decimocuarta Enmienda. El taller de la actividad diaria no atiende abstracciones esperanzadas. No se puede deshacer un sistema de la noche a la mañana: los abogados deben actuar con las leyes que tienen disponibles y no pueden inventar otras nuevas para sus casos o agarrarse a una mera política. No si quieren tener éxito.

En ausencia de la Decimocuarta Enmienda, muchas personas y empresas con quejas válidas podrían no tener soluciones constitucionales. Sin embargo eso no significa que los términos y efectos de la Decimocuarta Enmienda sean incuestionablemente deseables o categóricamente buenos. Se pueden celebrar las victorias logradas mediante la Decimocuarta Enmienda mientras se reconoce que debe haber un modo mejor.

La Decimocuarta Enmienda no es en sí misma un bien positivo sino un animal peligroso a manejar con cuidado. Los libertarios como clase tienen una devoción manifiesta impropia a su funcionamiento. Necesitamos en su lugar un debate, abierto, honrado y colegiado acerca de los méritos y la función de esta enmienda, no sea que otras criaturas similares miren al futuro y a costa de nuestras amadas libertades.

 

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